Um Ponto Luminoso.

 

 

Pouco sei sobre o seu passado! Exceto que, fora garimpeiro, funcionário público e que seria sempre um viandante.

Descendente de árabes, dizia o nome. Provavelmente beduínos - demonstrava estar sempre pronto para partir.

Dizia ir a caminho dos setenta. Poder-se-ia aceitar, por alguns detalhes físicos. Porém, se lhe observássemos o semblante, a disposição, a disponibilidade e a alegria, veríamos serem próprios de um jovem com menos de trinta anos.

Grandalhão, forte - no corpo e no vozeirão - o abraço acolhedor, dava a sensação de amparo incondicionado.

Aquela estrada, fora no passado meu caminho quase diário, durante alguns anos.

Agora, morando longe dali, raramente; muito raramente, era meu caminho.

Em uma dessas passadas esporádicas, observamos aquela cabana (não era mais que isso, feita de "costaneiras”, sem rejunte) na beira da estrada. Um cavalete de pintura e alguns quadros pelas paredes externas.

Curiosos, paramos para observar o trabalho do artista; assim conhecemos o Camel.

Agradou-me muito, um dos quadros (a cabeça de um gaúcho), porém o momento econômico não era o mais propício para uma extravagância; mesmo que pequena.

Mas, como é próprio do verdadeiro artista, estava o Camel pouco preocupado com o dinheiro; mesmo que lhe fizesse falta. E demonstrava a confiança dos espíritos leves, desprevenidos.

- Se realmente gostou do quadro, leve-o. Uma outra vez que passe por aqui, você paga! - disse ele.

Levei o quadro. Paguei no dia seguinte, na volta para Santos.

Tornamo-nos amigos.

Uma visita a ele, era até pretexto para uma pequena viagem, ou, em viagem normal, uma parada para um café frio e sem açúcar acompanhado de um dedo de prosa, fazia já, parte do programa.

Quando da última visita, em 14 de novembro, ele apresentava uma (aparentemente pequena ) dificuldade respiratória e, optou trocar os cigarros, pelo cachimbo.

Quatro meses ausente passo pela estrada e, no mesmo ponto a cabana. Porém, fechada.

Terá ido comprar molduras - penso.

Na volta, no dia seguinte, tudo na mesma.

Intrigado, resolvo voltar atrás e perguntar por ele, em uma lanchonete, também de beira de estrada.

Ali, fico sabendo que, no dia l5 de novembro, um dia depois de nossa última conversa, um derrame livrou-o do peso da carcaça (alguns dias depois).

Tratei de sufocar o egoísmo e alegrar-me pela liberação da luz e da energia positiva contidos naquele corpanzil amigo.

Agora, se passo pela estrada durante o dia, sei que não mais irei vê-lo e, me conformo.

Porém, à noite e, sem luzes artificiais, olhando para o céu, poderei imaginá-lo em algum ponto de luz brilhando no firmamento.

Carlos Gama. www.suacara.com

23/7/ 2000 – 23:22 h

 

 

 

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