Textos Cítricos   

 

À Mão Armada

Bruzundangas

Controle de Natalidade

A História da Vaca Hermafrodita

Computadores Independentes

Bodum

Cipoal Jurídico

Haja Água!

De Peixeira na Mão  

 

 

 

.

.

.

.

.

.

                            À   Mão  Armada..                   22/6/99.

 

 

À mão armada perpetram-se -  e assim foi sempre  -  os maiores e mais hediondos crimes contra o semelhante, contra a natureza e contra o universo.

À mão armada, sim!  Tudo o que, de violento se assiste, vem da ação ou da omissão da mão,  com a pena,  armada.

Antes que o marginal assim o seja e empunhe a arma que nos assusta, outras mãos o construíram (mãos de homens cultos que silenciam; maõs de governantes que mal governam; mãos de homens públicos que se omitem, se acovardam, se conchavam) e  o conduziram.

Tudo começou assim:

Com um pai sem estrutura, pela omissão das mãos politiqueiras de Ministros da Cultura, adeptos de sinecura; um pai sem emprego, varando noites ao relento em filas de admissão e obtendo, se muito, a cabeça molhada de orvalho.

E os políticos e o Ministro do Trabalho?

Ocupados  com o B.N.D.E.S., socorrendo empresário bandalho.

A mãe?

Morreu ao parir, sem ninguém a lhe assistir.

Saúde? Talvez no porvir!

Por ora, é o dono do Banco a sorrir.

Ao filho, se negaram cultura, dar-lhe-ão escolaridade: um tempo atrás da grade.

Direis que ele é filho da maldade...

E é... a mais pura verdade !  

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        Bruzundangas, Burundangas,  Barganhas,

Escambos e os Cambaus...

 

 

 

Vinte e dois de abril e lá se vai o Brasil... Ah! Se eu fosse poeta.

Já no princípio, os fins.

Êta terra dos confins!

Cinco séculos de história, do descobrimento aos dias atuais. Desde o primeiro contato com os aborígenes, foi assim. E nestes quinhentos anos permanece o uso das quinquilharias para o  jogo de troca-trocas. São hábitos tão arraigados, que já fazem parte da cultura do país.

Nada mais soa estranho a ninguém.  Favores são vendidos, mas o nome usado para classificar o ato, é outro. São apenas trocas - de favores - como se dinheiro e patrimônio público pudessem ser usados como se próprios fossem. E tudo, pelo "bem do país ". Depois, viram "bens de raiz".

O povo, acostumado aos cambaus, de boa vontade  barganha sua liberdade e seu direito de escolha por qualquer burundanga que o "candidato"  lhe oferece e acaba tendo o governo que merece.

Os escolhidos, lídimos representantes de seus eleitores, de cara-limpa, vão ao  escambo e  por qualquer  bruzundanga entregam  o país e suas riquezas aos eternos colonizadores.

Os índios são outros e os caciques também. Mas,  nos fins os princípios!

Lá se vão quinhentos anos, a terra, nem redonda ainda era e de lá, os patrícios cá mandaram uma esquadra de naus. De naus que navegavam.

Naus de navegar, não são naus de se envergonhar.

E navegando foram elas apresentadas à S. Majestade por Cabral.

- Apresento a Vossa Majestade a  esquadra a caminho das Índias. E esta é a nau capitânia!

Cinco séculos passados, os cá da terra pretendem apresentar a S. Majestade, a "Nau Capitânia".

Mas, fazendo água foi a nau flagrada.

- É esta a "Nau Capitânia"?

- Deveria ser Majestade mas...

- " Nau? Que patranha! "

Bem, nada mais se estranha.

E    "naufragou" onde "a vau" o burrico atravessou.

Mas,  na terra descoberta por Cabral, como só ali acontece,  cada qual faz o que lhe apetece. Alguém sai de cara limpa e com a  "burra cheia”!

- E o burro não chia?

- Burro é  animal que não se zanga, é só saber ajeitar a canga.  

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    Controle de Natalidade.                     

 

Foi hoje, durante um intervalo numa partida de tamboréu, que um amigo médico sugeriu que eu escrevesse ao jornal,  falando sobre o controle de natalidade.

Fomos trocando impressões e mesmo durante o jogo, chegamos à conclusão que este é um assunto gerador de polêmicas e nada mais.

O controle da natalidade teria que começar pela existência de uma legislação específica. O que para nós não é problema. Fazer leis é nossa especialidade, a começar pelo Poder Executivo. Se serão aplicadas tanto faz, o importante é legislar.

Haveria necessidade de continuar o trabalho através da  conscientização e da educação. O que não é conveniente. Um povo educado reduz a facilidade das manobras.

Controle de natalidade também significa redução de mão de obra, o que não interessa, principalmente aos nossos parceiros externos, que nos mantém como se fôssemos  o fundo de seu quintal. Daqueles quintais de antigamente, mantidos como um espaço futuramente utilizável e enquanto não, depósito de todos os detritos que seriam queimados logo que possível.

Isso, sem falarmos das pressões  contrárias e inevitáveis oriundas de muitas religiões que lutam contra o controle de natalidade, mas, nada fazem em prol desses nascituros.

Daí chegamos ao fim da partida e à conclusão de que falar no assunto seria o mesmo que pregar no deserto.

Desculpe-me!  Dr. Walmir, mas, eu sou teimoso.

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A História da Vaca Hermafrodita

 

 

A situação era sempre igual, fazia já, quinhentos anos. E, a rês, a mesma. Sugada, esgotada; as tetas pendentes, quase totalmente murchas. Mas, continuava sendo o grande sonho de muitos. Poder se atracar, nas tetas da

" rêspública "

Como  em todo o curral, ali também, existiam retireiros.

Uma mamadinha que fosse, já bastava  -  diziam alguns.

Pois sim! Depois que alguém se gruda, não solta mais.

Mas, o bezerro é precioso, na hora de soltar o leite.

Alguns, até que estranhavam certa rigidez, algumas vezes.

Mas, largar os tetos, jamais. Vá, que alguém se anime!

Até que... certo dia, alguém, dentre os excluídos,

resolveu levar adiante, o esclarecimento de uma velha

desconfiança, ainda dos tempos em que mamava.

Convocou todos os mamadores e ex-mamadores, também.

Criaram uma comessão para exigir exame genético da rês.

E sabe o que descobriram?

A vaca era hermafrodita!

Daí em diante, era um tal de negar as mamadas já dadas.

Ninguém conhecia a vaca.

Mamado nela?    Jamais!

O retireiro, então, nunca ninguém tinha visto.

 

É igualzinha à história do Lalau.

 

E, por falar nele!

 

 

Cadê?

 

 

Sumiu!

 

 

Foi pra...                              fora do Brasil.

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Computadores Independentes

 

 

Maldita a vilania  e a irresponsabilidade destes computadores independentes!

 

 

O nativo ia reclamar à ânustel mas, é pura perda de tempo. Qual o filho de consegue ser honesto na hora de ir contra a mãe?

Creio eu que, nenhum.

Afinal de contas, a reclamação é contra aquela espanhola descarada, de quem ela é fruto. O pai, pouco importa se é europeu ou norte-americano. Não faz diferença saber quem é ele. Tanto um quanto outro continuam justificando a paternidade e dando de mamar a muita gente grande, também.

Mas, deixemos as crias para falar da genitora.

A espanhola, malandra...Ou seria relaxada? Bem! A dita, assumiu ares de senhora e nos trata a todos, como seus servos incontestes. Pode, até, parecer-lhe lógico, pois vem de primeiro mundo e encontra um bando de nativos comodistas e acovardados; acaba achando ser natural ir logo assumindo seu papel senhorial.

Mas, o diabo é que ainda existem (poucos, mas existem) alguns nativos, com um mínimo de orgulho, rebeldes e insubmissos ao chicote dos senhores estrangeiros. É aí, que a porca torce o rabo. Mas, no final, o que arde é o do “filho da terra”.

O nativo, por necessidade, adquire o propalado sistema novo de comunicação que a espanhola oferece. Bem pago, é claro!

Acaba descobrindo que, ao menos no primeiro mês, é igualizado ao velho sistema de tambores ou aos sinais de fumaça. Põe fogo na taba e conclama até a mãe da miserável. Por sinal, tem-se quase a certeza de que a mãe é surda. Mas, ao menos a majestosa filha reage e manda uma funcionária, subalterna do porta-voz (lá, na língua, quase oficial, da aldeia, chamam-no de ombudsman), informar que o nativo vai ser ressarcido dos valores cobrados por conta de um sistema inoperante.

Passadas algumas luas, o terceiro-mundista  recebe uma conta, onde, além dos valores normais, fazem-lhe a cobrança em duplicata do novo serviço. Ele ficou speedy da vida, pois eles, logo abaixo, discriminaram a cobrança a maior, como crédito concedido e abateram um valor menor que o cobrado indevidamente.

O  “pele morena” sabe que se estende muito para explicar as coisas e pede a sua paciência! É que as armadilhas do homem de primeiro mundo são bem feitas e tem que explicar direitinho, né?

O nativo aqui, pegou o tambor e começou a bater os sinais para o “castelhano”. A empregada, muito educada, que o atende, depois de muito eco, entende tudo e, também não entende nada do que cobraram e devolveram a menor. Promete verificar e oferece duas opções ao “p.m.”:

Ela pode emitir uma segunda via da conta (com a correção dos valores e o estorno daquilo que lhe fora prometido abater [por não ter funcionado, por um período, o sistema adquirido]. O direito ao estorno [ressarcimento prometido] será verificado e voltará ou não a ser cobrado em próxima conta) que chegará depois do vencimento normal; o nativo vai ter que pagar multa por isso. Ou, como segunda opção, o “p.m.” paga a conta emitida errada e, no próximo mês, vem descontado o valor pago a maior.

O nativo é meio tapado, mesmo! Não consegue entender o que foi tão bem explicado.

A espanhola manda a conta errada, reconhece o erro, vai emitir segunda via que chegará depois do vencimento e o nativo paga a multa?

Das duas, uma: o nativo é muito burro ou, isso é piada do vizinho da espanhola.

Ah! Vocês querem saber sobre o computador independente?

É que a informação que deram ao nativo é que “foi erro do sistema”. Esses “erros sistemáticos” são sempre por culpa destes malditos computadores independentes.

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

Bodum

 

Vinha eu, já muito puto da vida, pois quase fora atropelado por um ciclista... Mas, depois eu falo disto!

Cheio de dúvidas, não sabia se voltava pelo caminho da vinda até ali, em busca do resultado do bicho ou se iria ao caixa eletrônico, já que o dinheiro murchara. Por fim, acabo me decidindo a tomar o ônibus e ir para casa. Já estava bem cansado, o calor intenso e a tarde caindo mansa.

Por sorte, logo surge um que me serve e quase vazio.

Passo a roleta e vou sentar-me lá no fundo, à direita. Logo adiante, o sol que está vindo por detrás, vai estar atacando pela esquerda.

Apesar de o preço da passagem ser dos mais caros do país, em razão de “a cachorrada estar com o rabo preso”, resolvo não pensar no assunto e vou sossegado, distraído, meditando, até que sou despertado por aquela fetidez. Mas, tão intensa, que tinha a impressão de que fosse até palpável ou, talvez, visível.

Olho à minha volta e descubro à minha esquerda, atrás, um rapazote. Tinha cara de não ser ele e a sua posição dentro do coletivo não colaborava para que fosse. Duas fileiras adiante, exatamente na minha direção, em um banco acima do nível normal, lá estava ela, com os dois braços levantados, apoiando as palmas das mãos, entrelaçadas, na nuca.

Não dava para suportar! Levantei-me e fui sentar bem lá na frente, à esquerda, sob o sol direto.

Soube que era “ela”, em função dos úberes. No mais, podia não ser uma cabra, para ser um bode. Um bode velho, até, pelo bodum. O corpo masculino e o focinho bem macho. Os dedos, então, de fazerem sucesso em qualquer consultório de proctologista. É claro que, dependendo da clientela.

Aqueles sovacos creio eu, nunca viram água. Muito menos limão ou qualquer desodorante, que, por pior que fosse, ajudasse a disfarçar aquela catinga.

Menos mal, que desci logo. Mas, o odor fétido ficou impregnando minhas narinas.

Vá feder assim no diabo que a carregue!

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cipoal Jurídico.

 

Estratégia ou Incompetência?

 

Acredito eu, como observador leigo, que as duas hipóteses são verdadeiras.

Foi num dia destes, pela manhã, lendo a reportagem sobre a situação do senhor Orlando Lovecchio (que teve a perna amputada pela explosão de uma bomba defronte a um quartel do exército, nos idos de 1968), que atentei para a realidade desta dita Democracia. A situação em que este Estado chamado de Direito, mantém  este cidadão, é revoltante.

Os anos se arrastam, ele envelhece, se desespera e continua perdido, nesta selva intrincada, em que transformaram as normas jurídicas, propositadamente. Quando o cidadão, em busca de seu direito, pensa ter se desvencilhado do último liame; outros tantos já terão sido criados, para impedir-lhe a marcha.

É uma selva tão densa, que só obtém sucesso, na caminhada, o viajante que possa contratar um guia abalizado. E estes, custam caríssimo!  Muitas vezes, só conseguem auxiliar na caminhada, após romperem ou sobrepujarem  alguns desses empecilhos legais, a custa de verdadeiras "mágicas".

É exatamente esta, a figura que se pode ter do Estado atual. Uma floresta protegida por um emaranhado crescente, de cipós.

Espaço e privilégio de alguns poucos, mentores deste cipoal, criado às suas expensas, para seu gáudio e de alguns pares.

Conheça um pouco mais sobre este episódio em: "www.exibir.com/dhumanos.htm"  

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

Haja Água!

 

 

Sob a lona da lavanderia de mãe Joana, existe muito mais roupa suja, do que seja possível lavar naquele tanque.

Algumas delas, com ares de superioridade; muitas vezes desaforadas e sarcásticas, julgam-se melhores só por causa de uma simples “éticketinha” que as distinga das demais.

A única saída é substituir tudo, ou quase, preservando umas raras peças mais novas, ainda não encardidas e, ao tempo certo, queimar todas as outras.

A adoção desta saída é simples e exige, somente, uma coisa:  “vergonha na cara”,  na hora do voto.

Em peças encardidas a esse ponto,  não há sabão que dê jeito!

Carlos Gama.www.suacara.com

03/4/2001 – 20,30 h

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Peixeira na Mão

 

 

Mais uma, naquelas filas de banco.

Não é que me esteja faltando cenário ou que eu passe a vida nesse ambiente de filas, nas instituições bancárias. Tampouco gosto disso, embora a maioria dos aposentados dê essa impressão. O que ocorre, é que eu vejo no pagamento das contas, uma a uma, em seu vencimento, a possibilidade de ter ao menos a ilusão de saldo bancário, assim como vê, a maioria dos aposentados. Cada conta, cujo pagamento é feito, apenas, na data aprazada, possibilita a permanência de um “saldinho” na mirrada conta bancária, até o dia do juízo final dos miseráveis caraminguás, o que não tarda mais que uma semana.

Aposentado é aquele a quem o governo, por inépcia administrativa, obriga a passar por privações; é o famoso miserável de “carteirinha”.

Bem, isso todo mundo já sabe e não preciso eu, aqui, ficar falando em redundância.

Mas é que eu comecei o dia, meio azedo, depois de abrir o jornal e, de cara, me deparar com um artigo, daqueles adequados a estas antevésperas de eleição. Um político, que pretende trocar a vereança pela posição de alcaide, encontra espaço no diário local, para deitar falácias a respeito do porto - há muito naufragado, e da “exconomia” da cidade, que deixou boa parte do comércio, à beira da falência – e aconselhar trancas às portas arrombadas; só mesmo de quem pretende se “acertar” a qualquer custo.

Depois, a famigerada espanhola a nos comunicar um leve aumento na tarifa do “ligeiríssimo” e infalível sistema Speedy. Um pequeno acréscimo de, pouco mais de 20%. Com essa liberdade total de ação e espoliação, tenho plena certeza é que tem gente com a mãe na zona e, seguramente, não sou eu e nem, tampouco, aquele garoto cuja genitora foi levar o telefone para consertar, lá pras bandas da Rua Aurora.

Depois desses pequenos motivos, imagine o meu estado de espírito.

À minha frente, na fila, estava o “cueca”, que logo encontrou espaço para falar contra a falta de assistência para cuidar de nossos assuntos pessoais e profissionais.

Depois de haver enfrentado, solitário, nos últimos quatro anos, uma dura batalha contra os moinhos de vento da estrutura do estado e outros, especificamente criados para desmontar o sindicalismo, não quero nem ouvir falar no assunto. Virei-lhe as costas e fiquei olhando para o final da fila.

E continua ele:

-Já cumprira as normas e feito os exames médicos exigidos pelo OGMO (Órgão Digestor de Mão de Obra), quando tive quatro envelopes, de pagamento, retidos. O pior disso tudo, é que chega a quinta-feira e a minha faxineira, a Raimunda, quer receber de qualquer jeito e se eu não pago, o marido dela que é pernambucano é capaz de vir pra cima de mim com uma peixeira.

Não perdi a deixa, e continuei em seu próprio ritmo:

-Ora, se é por falta de quem lhe defenda arranje, também, um marido pernambucano!

Nem sei porquê, ele me olhou feio – enquanto o pessoal ria – e saiu do banco sem ter sido atendido.

Carlos Gama. www.suacara.com

06 de fevereiro de 2002 – 19:00 h

Página Principal