É cada dia mais patente o pouco caso das autoridades constituídas, em relação ao povo que as elege e sustenta. Não é preciso procurar, não, esse pouco caso está claro e bem perceptível em cada ato público ou em cada ausência.
Abri o jornal, agora pela manhã, e a primeira matéria é uma entrevista com o secretário municipal de desenvolvimento e assuntos estratégicos... Ah! Talvez aí resida a minha ignorância, porque não entendo nada de estratégia, ainda mais deste nível. Mas, ainda assim vou tentar explicar o esbulho informativo a que submetem esse povo apático, alheio, preocupado apenas com bens de consumo e programas de "esfrega-esfrega" em canais de televisão.
Vou tentar explicar ou entender o que está ocorrendo, porque o dito estrategista tenta nos convencer da circunferência do retângulo e vai mais além e eu não sou de comer enrolado ou ficar quieto.
Paralela ao mar, distando dele uns dois quilômetros, passa a "linha da máquina" (os trilhos da desativada Estrada de Ferro Sorocabana), que atravessam a cidade, ligando o Porto de Santos a São Vicente e prosseguem, entroncando depois, para o Vale do Ribeira e para a capital do estado. Essa ferrovia tem somente uma linha (um par de trilhos) e ocupa, como é usual, um outro tanto, uma pequena área, de cada lado dos trilhos. No total, a largura é menor que a de uma das pistas da avenida que a margeia, a Francisco Glicério, que tem duas faixas de rolamento e mais um canteiro central, estreito.
Sob as mais estapafúrdias alegações, que nada têm a ver com a realidade física ou com a solução de problemas de trânsito, o estrategista-mor tenta explicar os porquê do Município pretender "trocar" com o Estado a área da avenida Francisco Glicério, pelo leito estreito da antiga ferrovia, para onde seria deslocado o trânsito de veículos automotores (motocicletas, automóveis, ônibus e caminhões). Embora a avenida e a linha férrea sejam contíguas e corram paralelas, ele tenta alegar que tal "manobra" facilitaria a coordenação dos semáforos (coisa que eles não conseguem implantar, em nenhum ponto da cidade, seja por incompetência, seja por descaso), que permitiria a abertura de ruas e outras "facilidades" que só ele e outros interessados entendem.
Há algum tempo, ouve-se falar de implantarem um trem urbano de passageiros, trafegando sobre esses mesmos trilhos, excetuando-se o trecho onde a área, agora, é particular. Aí, nesse ponto, sem que se saiba oficialmente as razões, o Governo do Estado projeta desviar os trilhos para o canteiro central da avenida, retomando o traçado original mais adiante.
Esse trecho, que foi o mais importante e o mais amplo de toda a área dessa ferrovia no município, era composto pela estação de embarque da Avenida Dona Ana Costa, pelos armazéns e pelos pátios de manobras, que se estendiam desta avenida até o canal dois. Com a desativação da ferrovia, tal área, nobilíssima, pela "Lei de Ocupação do Solo" deveria ser destinada a atender interesses sociais e de lazer da comunidade. Entretanto, ela foi licitada pelo Governo do Estado e vendida a uma empresa da capital, da área supermercadista, por exatos trinta e três milhões de reais. Grita de cá, grita de lá (não foi o povo apático, não, porque a grita tinha sotaque estrangeiro e alguns timbres políticos) e a venda foi embargada... Uma semana, duas, cochichos de cá, cochichos de lá e a lei foi modificada, vantajosa e vergonhosamente alterada, atropelada e o "pedaço nobre", que era de interesse social, foi negociado com um novo pretendente, pelo valor original.
Agora, o estrategista municipal fala em "cortar" a área, "atravessá-la", para dar continuidade às ruas que ali terminam.
Será que o proprietário da área vai permitir que ela seja cortada por ruas a serem alongadas? Será que a Rua Pará vai atravessar o posto de combustíveis (que nem poderia estar ali, junto de um hospital e próximo a escola) ou a rua Amazonas vai passar por dentro dos prédios construídos na área? Duvido!
Se, por milagrosas razões, o dono "aceitar" que desapropriem essas pequenas áreas, com certeza vai ser indenizado em muito mais que os trinta e três milhões e alguns "extras" que ele acabou despendendo no negócio de compra da área total.
Mas são apenas conjecturas, só conjecturas, o resto fica por conta da história e de quem for contá-la. Ou pode a análise lógica ficar a encargo de quem ler e conseguir entender aquilo que contraria o princípio dos teoremas.



Santos, 1/3/2010 10:52:39.

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