Sexta-Feira 13
de maio, domingo, “Dia
Das Mães”. Uma camisa a mais por sobre os ombros e lá vou eu, ao encontro dos meus amigos. Vale a pena aturar algumas caras feias, olhares críticos de soslaio, mas eu pouco me importo. Para mim, o que vale mesmo é a satisfação, com a consciência tranqüila. Olho o céu enfarruscado, mas não creio que chova e vou, assim mesmo, sem guarda-chuva. Uma passada na padaria, onde a jovem do caixa já espera, com os dois maços de cigarros e os fósforos sobre o balcão. É sempre a mesma cena: os cigarros do Dito e do velho Adiemar, os fósforos são para Jurema.. Vou chegando, de mansinho e distribuindo alguns sorrisos e meus cumprimentos à Júlia, Dona Dora, Dona Dita e...até chegar na minha velha amiga Dona Ana Luíza. Sempre muito arredia, desde os tempos em que ainda caminhava sozinha, com seus passos lentos e pesados. Eram raros, muito raros, os momentos em que se a via. Acostumou-se comigo e com meus agrados a velha mineira, que hoje já nem sai mais da cama. Mas, que me trata com muito carinho e sorrisos de boas vindas. Não sei se foi casada ou teve filhos mas, logo que me achego e passo a mão em seus cabelos crespos ela me olha, sorri e pergunta: “Como vai meu filho?”. Como ontem à tarde, depois que deixei o dormitório onde ela vive; agora também, os soluços sufocam na garganta e as lágrimas afloram nesta lembrança doce e eu tenho que libertá-los, se não, o ar sufoca no meu peito. Dei, ainda, uma passada rápida pela ala onde vive D. Sarah, Thereza, Dona Eméria, Dona Nazareth, Dona Maria do Carmo (sempre louca por uma visita, nunca havida, do filho), Dona Adélia e seu sorriso franco, lá do alto de seus oitenta e cinco anos. Lindo sorriso, o desta velha negra baiana. Um beijo e me despeço dela, já indo a caminho do “quartel”. Do outro lado, vou cumprimentando a todos, também, um a um por seus nomes. Mencionei hoje o nome de algumas das minhas meninas porque é dia das mães. Dos amigos vou falar, apenas, do meu velho e querido companheiro seu Raimundo. Depois dos cumprimentos a todos, volto a esse meu amigo, puxo a banqueta, sento-me defronte a ele e, lá vamos nós, nas nossas conversas. O asilo é um agito só! Hoje tem futebol televisionado, a semifinal de campeonato entre Santos e Corinthians. A divisão entre os internos é desproporcionada; tem mais corintianos que santistas. Mas, entre a juventude visitante, a situação é inversa e a algazarra é total. Meu amigo, alheio a isso tudo, vai me perguntando e eu, aos poucos explicando o que está ocorrendo. Para variar; ele sempre muito lúcido e inteligente; comenta: -É! Com carnaval e futebol, a coisa é diferente aqui no Brasil. Nem há necessidade de pão, basta o circo! Rio e concordo com ele. -O senhor está bem? Sarou de vez, da gripe? -Só está me judiando, este frio! -Dura vida esta, de nordestino no inverno do sudeste, não? Ele ri e concorda com um aceno de cabeça. -Seu Carlos! Hoje é treze de maio, não? -Sim, seu Raimundo. (sem quase enxergar e ouvindo muito pouco, ainda não tenho a certeza de que maneira o meu amigo tem sempre na mente, a data correta e o dia da semana. Creio que ele vá marcando os dias, mentalmente. E nunca errou, que eu me lembre!). Data da libertação dos negros escravos e, também, dia das mães. Essas, então, nunca serão libertas. E que nenhuma nos ouça – digo, sorrindo. Um pouquinho de política, seu mau cheiro e, até a inspiração para montar uma página sobre a tal CPI da Corrupção; que parece, não vai acontecer. É muita gente com rabo de palha! Bem...a sineta toca, nossos semblantes se entristecem pelas saudades antecipadas e lá vou eu, me despedindo. -A chuva caiu, de verdade, seu Raimundo, e eu nem havia percebido. Vou telefonar ao meu filho e pedir que me venha buscar. Afinal, já o carreguei tanto, não custa nada! E ele virá de bom grado. -Seu Carlos! Não quer levar meu guarda-chuva?- diz seu Francisco. Não é a primeira vez que ele insiste em mo emprestar. E fica ansioso pelo aceite. -Não vai lhe fazer falta seu Francisco? Se não for usar eu aceito mas, só irei devolvê-lo na quarta-feira. Está bem? Ele sai, arrastando vagarosamente os pés, apoiado na bengala. -Deixe, seu Francisco! Eu mesmo vou buscar. Onde está ele? -Na cabeceira da cama. Saio eu, sob a chuva forte, coberto pelo diminuto abrigo. Vou a passos lentos, me lembrando das alegrias do dia, das palavras de meu velho amigo e de toda a sua sabedoria. Continuo encafifado com seu sistema de marcação mental dos dias da semana, das datas e dos meses. Aí me ocorre a lembrança do sistema usado por Robinson Crusoé e volta-me à mente aquela história que eu li e reli inúmeras vezes, em minha infância, na adolescência e até na idade adulta. A solidão em que vivia o nosso náufrago, até que conseguiu um companheiro humano. Seu Raimundo é um Robinson Crusoé. Um náufrago, isolado do mundo, e eu sou o seu Sexta-Feira. Carlos Gama |
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Iniciado ontem à tarde e concluído agora, às 23,50 h do dia 14/5/2001.
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Este texto ficou esquecido, misturado a outros tantos e, hoje, quando o redescubro, já passados 16 meses, muitos dos personagens já não mais estão entre nós. Seu Adiemar nos deixou, faz mais de um ano. A Jurema, felizmente, foi redescoberta por uma tia que a levou para morar com ela. A Júlia está sempre bem, com a visita das irmãs. Dona Dora perdeu a memória, não conseguia mais se manter em pé sozinha e chegou a ver a outra banda mas parece que desistiu, recobrou a memória e voltou a caminhar sem auxílio de ninguém. Dona Dita ficou sem o namorado, seu João, mas parece que já arranjou outro. A Thereza partiu, por conta do açúcar em excesso, no organismo. D. Maria do Carmo também se foi, sem ver o filho. D. Adélia foi internada, ontem (03 de outubro de 2002), na Santa Casa (irei vê-la, pela manhã!). Dona Ana Luíza vai no mesmo passo e Dona Sarah está sempre ótima. Dona Eméria (eta espanhola durona!) vai de vento em popa, lá do alto de seus oitenta e oito anos e, no último domingo quase me sufoca com seu abraço apertado, por conta de meu aniversário. Seu Francisco está firme, sempre disposto a me ceder seu guarda-chuva e seu Raimundo, continua rijo como um velho pau-brasil, a quem o homem não descobriu para destruir.
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