Seu João "Benzedor"

 

Ele chegou no bairro, vindo lá dos confins das Gerais, em silêncio, sem qualquer alarde, nada que denunciasse suas aptidões rezadoras.

Tomei-me, logo, de antipatia por ele.

Grandalhão, forte, aqueles olhos estranhos, as pálpebras vermelhas, sobressaindo naquela tez morena, de caboclo. Com desagrado, eu passava por sua casa  e tinha que fazê-lo obrigatoriamente, a caminho da minha, vindo da cidade ou da venda. Era mais provável que acontecesse ao vir  da venda, quando eu vinha a pé  e me causava mal estar olhar aquele rosto incomum, ao cumprimentá-lo.

Era apenas bom dia ou boa tarde, por questão de respeito e educação.

A mulher, ao contrário dele, era pequenina. Parecia simpática, ao menos de longe. De qualquer maneira; eles lá, nós cá.

Toda Sexta-feira Santa era uma loucura. Na véspera, à noitinha, começavam a chegar os ônibus, lotados de gente esperançosa nos resultados de suas benzeduras. Ele “rezava”, de tudo que era mal, em qualquer dia. Mas, naquele dia especial, os pedidos eram, principalmente, para emagrecer e para curar bronquite.

Para nós, lá de casa, adultos ou crianças, era a maior vergonha essa época. O causador disso tudo, um cachorro marrom, mestiço de perdigueiro. Nunca se viu bicho mais esfaimado. Durante um teste, feito por empregado lá de casa, o “saco sem fundo” engoliu três filões de pão. Isso porque, o João parou de atender a sua fúria devoradora.

Nessa época, o miserável percorria a enorme fila de crentes, a pedinchar comida e devorava tudo o que lhe fosse dado. Nos envergonhávamos  em admitir que era nosso o animal, pela impressão causada. O ar de miséria que ele transmitia, mesmo estando bem nutrido.

Certa feita, depois do tombo mais tolo que se possa imaginar, fiquei com uma das pernas sem articulação no joelho. Apesar de todos os tratamentos possíveis, gesso, banhos e aplicações feitos na cidade grande, não houve jeito de curar. Andar a cavalo, nem por sonho. Ordenhar as vacas, nem pensar. Trator, só na carreta e, no automóvel, ia no banco de trás com a perna esticada de lado.

Embora já desconfiasse de um mau olhado, não queria dar o braço a torcer.

Uma tarde qualquer, ia eu, a pé,  a caminho de casa quando, ao passar defronte da casa de seu João, ele me pergunta, lá do portão: Como é, o joelho não melhorou?

Mesmo reticente, aproximei-me, por questão de educação. E ele, com seus olhos sanguíneos, me olhando bem lá dentro, diz: Isso é mandinga! Não quer que eu benza?

Sem saber o que mais fazer; acedi.

Pela primeira vez adentrei aquele pequeno cubículo que ele construíra no quintal, à frente da casa, tão logo ali chegou. Um pequeno altar, muitas imagens, fitas, negrume das velas por todos os cantos e duas cadeiras.

Ele acendeu uma vela, pegou um amuleto cheio de fitas, mandou que eu erguesse a perna da calça e começou a rezar baixinho, encruzando o meu joelho. Terminado o ato, mandou que eu me agachasse.

-Não posso! Digo.

-Tente e vamos ver.

Com muito cuidado e enorme receio eu vou, aos poucos, me abaixando. Fiquei encantado, parecia uma criança, de tanta alegria.

-Não abuse! Ainda não está totalmente curado; tem que voltar mais duas vezes - disse ele, com um sorriso largo e paternal.E foi assim, a partir daquele momento, que nasceu nossa amizade, que se estendeu no tempo, até a hora de sua partida.

Dali em diante, todo o fim de tarde, depois das lidas, eu descia a estrada até a casa dele e ficávamos proseando e fumaçando no terracinho dos fundos da casa, à beira rio, enquanto dona Mariazinha tratava da galinhada no terreiro. Quantas tardes leves e gostosas ficaram gravadas em minha lembrança.

Uma vez ao mês, eu me levantava ainda noite para ir levá-lo de carro no “Rio Acima”; onde ele pegava o primeiro ônibus que o levaria à cidade, para receber a farta pensão que os mantinha, a custo.

Eram tantas as histórias e os exemplos de curas e ajudas, que até o meu filho (sujeitinho mais cético ainda não vi, até hoje!) acabou apelando para ele, em hora de desespero.

Passara a noite toda -era o homem da casa, afinal já contava seus treze anos e o pai estava fora-  puxando o garanhão pelo cabresto, fazendo-o andar e impedindo,a todo o custo,que se deitasse. Ele sabia, por experiências vividas anteriormente, que não podia permitir que o animal com cólicas se entregasse. Seria o fim! O eqüídeo, com cólicas, deitando-se, debate-se até a morte. Daria tempo de esperar que o veterinário chegasse e aplicasse uma injeção? Houvesse tempo, logo depois da aplicação o animal iria urinar, evacuaria  e estava pronto para outra.

O veterinário fora chamado, mas estava atendendo em uma fazenda distante, restava, pois, esperar por ele e rezar.

Pensando nisso, apesar da descrença que ainda o acompanha, tratou de ir atrás do benzedor. Seu João acendeu uma vela, mandou o menino pensar no animal, fez sua reza e mandou-o embora.

Chegando em casa viu que o cavalo, lépido, trotava pelo piquete.

 

 Carlos Gama.