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Sempre
Nas Nuvens
Essa
é ainda do tempo em que o nosso artista morava em São Paulo, sua terra
de nascimento.
Fase
de juventude, na década de sessenta, cabelos meio compridos; as calças
de boca de sino, de cores berrantes; cintos largos, com fivelas enormes;
sapatos com salto carrapeta; verdadeira imagem de circo, no ângulo de
visão do pessoal de agora, mas naquele tempo era a moda jovem. Parece
que nunca o mundo foi diferente daquilo que é hoje; as gerações
seguintes sempre olhando para trás, com olhares críticos sobre a falta
de gosto do pessoal que os precedera. Até as músicas eram de mau
gosto. O “bom” é o atual, assim como o tropel do Pocotó, e não as
melodias do tempo da vovó.
Digressões
à parte; era com essa indumentária psicodélica, acima descrita, que
ia vestida a dupla de amigos, a caminho do bailinho de sábado, na casa
de alguém da turma. No banco de trás do Volkswagen (ainda não havia
virado fusca!) iam as acompanhantes: as garrafinhas de Coca-Cola e as
duas garrafas de rum, para a Cuba Libre. Os comes eram por conta das
meninas (A malícia é coisa de hoje!).
No
rádio da baratinha verde clara, de pneus faixa branca, tocava
“Alegria, Alegria”, sucesso recente de Caetano Veloso. Você se
lembra? Dizia assim:
Sem
lenço, sem documento, no sol de quase dezembro, eu vou...
E
nessa balada iam os dois, tamborilando na lataria com as pontas dos
dedos. descendo a Pamplona em direção aos Jardins.
Aí
o vício (hoje velho) recente faz com que o Magrão se recorde do maço
de cigarros “apanhado” no guarda-roupa do pai. Um maço de cigarros
importados - com filtro - e que iriam fazer
furor entre as meninas.
Põe
a mão no bolso da camisa, pega a pacotinho e levanta a tampa “flip-top”;
uma novidade. Oferece um para o Paulão, que recusa porque não fuma
(foi mais por isso que ele ofereceu!). Aí ele se lembra que esquecera
em casa a caixa de fósforos e, distraído que é, pergunta ao amigo se
tem “fogo”.
O
motorista aperta o botão no painel do carro (botão de plástico cinza,
redondo e meio comprido; se você fechar os olhos vai revê-lo como o
conheceu, naquela época). Depois de algum tempo, com a temperatura
adequada, ele salta do encaixe, voltando à posição normal. Isso era
sinal de que estava pronto para ser usado.
Logo
que ouve o barulho característico, o Paulão estende a mão, retira o
acendedor de cigarros e o entrega ao Magrão. Ele o apanha com a mão
direita, com a esquerda coloca entre os lábios o cigarro e encosta nele
a ponta rubra do espiral interno do acendedor.
Dá uma leve tragada, saboreia a fumaça cinzenta, balança o
acendedor num gesto instintivo e o atira pela janela.
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