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de autoria de Narciso de Andrade.
"Poema"
Eu invento horas de dor e de alegria
e na minha oficina de poeta trabalho
a beleza das manhãs que não existem.
Uma palavra basta-me para baixar crepúsculos
neste pedaço de terra onde habito,
que sou poeta e por ser assim
governo o mundo, a vida e os elementos.
Sou eu que modelo a forma das mulheres que desejo
e lhes coloco cores nos olhos, ritmo nos passos,
movimento em seus gestos ao sabor de ventos
Arrancados ao sopro de meu verbo criador.
Com a minha força ergo fortalezas
onde se abrigam exércitos de melancolia.
E lanço contra a marcha dos dias
a perenidade de meus versos imortais.
Entre o presente e o futuro lanço uma ponte
sobre a qual transita o meu pensamento.
Posso adivinhar que a poesia acontecerá amanhã,
durante a noite, quando alguém estiver morrendo
numa província chinesa de estranha geografia.
Não tem importância: para cada morto
invento mil crianças sorridentes
e faço-as brincar de roda neste quarto
que em vão tenta conter
minha forma ( sobre ) humana de poeta.
Não preciso de nada e de ninguém
e sou o único que entende o lírico
idioma das flores e dos animais.
No silêncio penetro
com a doce intimidade das madrugadas...
Posso viver como quero e assim morrer
pelo poder que me confere a poesia.
E, em verdade, nada sou, nada sei, nada faço:
apenas suporto esta carga de poderes
que me fazem o mais fraco
E o mais triste de todos os homens.
O poeta, paulistano, nasceu na Liberdade. E, com ela, vive e convive à beira mar santista.
Inauguro este meu espaço, homenageando o Poeta.
E, posso ouvir, quase, vinda do espaço, a exclamação:
" Só poeta, não. É meu Poetirmão !"
(Vivido sob a emoção do possível encontro com o poeta) , escrito e carregado comigo, dias após, na expectativa de um primeiro contato, mais pessoal, com o artista, durante um sarau. Por mais cativante que seja esta alma, de uma simplicidade ímpar e doçura no trato, a inibição não permitiu que eu lhe entregasse pessoalmente, a pequena homenagem. Faço-o agora, !
As Lembranças Pelas Pontas.
Apeio ali, a uma quadra do mar, na Ponta da Praia. Faço as vezes de carteiro, portando minha própria correspondência. Nada além de meu interesse, em que ela chegasse ao seu destino, hoje mesmo. Não era um assunto urgente. Mas, se eu protelar, raciocino e acabo desistindo. Imagine o aprendiz de escrevinhador, querendo se corresponder com um mestre das letras. Será que me achará petulante e inoportuno ? Não creio ! Sua sensibilidade de artista, perceberá, por detrás de meus cabelos brancos, o menino querendo opinar sobre o texto lido. Ou, até, quem sabe, auxiliar o poeta em suas divagações sobre a influência da modernidade nos meios de comunicação. Umas poucas palavras, um pequeno comentário, sobre o futuro do livro, tema de sua última crônica publicada.. Meu texto, breve e simples, é dirigido a um mestre escultor aqui da cidade. Um exímio entalhador de textos. Ele é daqui sim ! Ao menos de coração. E têm provas disso. Verdadeiros "mestres escultores", esses seres, quase mitológicos, empunham seus cinzéis, com tal maestria que, através de sua obra, podemos tocar e sentir, como se físicos fossem, os resultados de seus trabalhos, entalhados com as palavras, em nossas reminiscências latentes.
A tarde, nebulosa e tranqüila, vai me encaminhando, em conluio com a memória, através do passado, de permeio com meus passos miúdos de criança. Maravilhosa memória, obra inimitável da Natureza Criadora que, mesmo passadas algumas dezenas de anos, me conduz como se levasse, pelas mãos, aquela criança escondida nos recônditos deste Arquivo Divino, ao local exato e autêntico onde morava seu Ribas. Ouço até, a voz suave e inconfundível de dona Adolfina me chamando: "Carlinhos..." . Ouço, mas não me detenho ! Vou indo, em minha busca, pelo terreiro, por detrás do muro onde as galinhas são soltas, pela manhã. É ali, que as retardatárias na postura, acabam pondo seus ovos. E, atrás deles, vou eu ! Posso passar por cima do muro, mas prefiro a abertura ao rés do chão, fechada por uma portinhola de madeira. Ali, me espremendo, quase entalado...passo e parto, naquela aventura pelo capinzal.
Caminhando em direção oposta ao mar, passando o seu prédio, vem mais outro, depois, os sobradinhos. No fundo daqueles quintais, o terrenão que fazia fundos a todos os imóveis desta sua rua... seu Narciso. E, por aí vou eu, tateando com a ponta dos dedos, o envelope da carta recém escrita; ainda eu, menino, tateando vou, as minhas memórias da Ponta da Praia, antiga.
Carlos Gama.
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