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Os Senhores da Terra

 

Nos últimos trinta anos, trabalhando na beira do cais, conheci duas pessoas com o mesmo nome. Viviam, ambos, com a cabeça perdida não se sabe onde.  Hoje, acredito ter descoberto a razão. Consultando o dicionário, ele me explica que, o termo significa  "senhor da terra",  no idioma tupi-guarani.

Nada mais lógico! Já que eram senhores da terra, era muito natural que procurassem novidades "andando no mundo da lua".

O mais novo deles, nem tinha outra justificativa que não fosse essa, agora, aventada. Pois, a sua outra profissão era a de professor.

O mais antigo, além do nome, tinha a seu favor o fato de ser artista. Não, que o fato justificasse as suas proezas, mas, explicava-as.

Vivia tentando empresariar alguma atividade artística. E com isso, ficava  “bolando“ os cartazes, no maior distraimento, enquanto o trabalho "corria solto". Era a coisa mais difícil alguém se zangar com ele, dada a sua simpatia, seu ar jovial e a permanente alegria. A total ausência de maldade dava a todos a impressão de estar diante da pureza de uma criança.

Outro de seus dotes era a poesia.

Este seu alheamento, durante o trabalho portuário, granjeou-lhe fama e alguns dissabores, como daquela feita em que o nosso poeta trabalhava no cais do Valongo, em um navio de cabotagem.

Eu sei que, alguns dos termos anteriores merecem alguma explicação e vou dá-las.

Valongo é um dos mais antigos bairros de Santos, onde, até hoje, passadas algumas centenas de anos, ainda permanece a Igreja de Santo Antônio, uma das primeiras a serem construídas, na nova terra descoberta por Cabral. Ali, bem próximo à igreja, começaram os primeiros trapiches que, crescendo, transformaram-se no, outrora grandioso, porto de Santos. O  pequeno trapiche acabou sendo imortalizado pelos pincéis do  famoso Benedito Calixto de Jesus.

Com o crescimento do movimento e o alongamento da área de acostamento de navios,  o trecho de cais do Valongo e os três ou quatro armazéns subseqüentes, hoje abandonados, eram usados para a atracação dos navios de cabotagem, que são aqueles que fazem, ou faziam, o tráfego entre portos do mesmo país.

Nesta época, entre as décadas de cinqüenta e setenta, a maioria desses navios tinha, como principal destino o porto de Manaus. Para ali, ia, daqui do sudeste, tudo o que se possa imaginar, desde leite em pó, até engradados com aparelhos sanitários. E claro está que, por volta de sessenta começaram também a embarcar, rumo ao nordeste e  norte, os primeiros veículos automotores, aqui montados.

Esses "caboteiros" - como nós os chamávamos - levavam carga, onde coubesse; algumas vezes até, na cabine do próprio comandante da embarcação.

Eram “sempre“, navios de bandeira brasileira, pois  ainda não havíamos entregado a maior parte de nossa economia, ao capital especulativo internacional.

A bordo, vez ou outra, no dia da partida, acabavam acontecendo almoços e jantares de despedida, oferecidos às autoridades da região.

O trabalho diurno, no porto, ia das sete da manhã até às dezenove horas. Interrompido, das onze às treze, para almoço, exceto em ocasiões muito especiais.

Neste dia, no navio  "Val de Cães",  um dos profissionais que estava conferindo a carga, era  nosso Ubirajara, o dos dotes artísticos.

Das sete, até aproximadamente, às dez horas, ele conferiu  tudo que era miuçalha: engradados de cerveja, tecidos, carne enlatada e até, penicos (sem uso, é claro!). Depois, começaram a chegar os veículos, que iam, no convés.  Embarcados, suspensos por guindastes, um a um. Então, o trabalho foi interrompido para o almoço e restaram junto ao costado, ainda algumas camionetas e uns tantos jeep, todos já conferidos e de conformidade com os documentos de embarque.

No porto, naquele tempo, não entrava ou saia qualquer mercadoria, durante a interrupção das operações.

Findo o interstício, voltam à normalidade as operações de embarque.

Perguntam os operários, ao portuário poeta:

- Pode embarcar?

- Pode. Já está, tudo conferido. Assim dizendo, retornou às suas  rimas.

Lá pelas tantas, surge no portaló, um marinheiro que, muito branco, desce as escadas em desabalada carreira e pergunta:

- Onde é que foi parar o jeep?

- Tudo o que estava aqui, já está a bordo, embarcado - exclamam os trabalhadores.

Adivinhem o que aconteceu! Os trabalhadores, conhecendo de há muito, a fama de sonhador, de nosso poeta, ao perceberem  o veículo de cor cinza e com as insígnias da Marinha de Guerra, perguntaram se poderiam embarcar.

Só não avisaram a ele que, dentre os veículos que estavam junto ao costado do navio, estava o jeep do Capitão dos Portos, que viera para o almoço.

Carlos Gama.www.suacara.com 

25 de junho de 2000.

 

Plano de fundo: "Praia e Rampa do Consulado" óleo sobre tela de autoria de Benedito Calixto de Jesus. O pintor nasceu em Itanhaém, no litoral sul do Estado de São Paulo em 1853 e faleceu na capital em 1927. Além da pintura, arte que o imortalizou, Benedito Calixto produziu diversas obras literárias.