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Ocaso de um verso triste
Lizete Abrahão
Se eu amanhã me for, o tempo é a mortalha,
Meu corpo nu volta nu de onde veio,
Nada mais a cobrir-me, a noite me agasalha.
E não lamentem, vou feliz com o que creio...
É meu ocaso, hora em que quero dormir
Por trás das tardes dos meus dias exauridos.
Que seja cor de sangue o véu a me cobrir,
Igual às nuvens sobre os mares incendidos...
Silêncio é o que peço, não quero blasfema,
Para eu poder ouvir o canto de um pardal.
Esqueçam preces, diga um poeta um poema,
Na sua voz, serei princípio e meu final...
Quando eu me for, e pode ser amanhã mesmo,
Saibam que deixo aqui meu único lamento:
O de ter sido um verso branco escrito a esmo,
Sem poesia que me seja luz ao relento
28.03.07 |