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O
Porto Sobrevive.
Descobri
numa madrugada destas, pelo computador, um som que lembra muito o som
dos navios e dos rebocadores, naquelas noites distantes em que seu Nabor
e eu ficávamos esperando que o companheiro largasse os cabos, levando a
bordo, pedaços de nossos corações.
Como se pequenas partes de nós, partissem junto com aqueles nossos
amigos estrangeiros.
Assim também, quando eles voltavam, era como se revíssemos pedacinhos
de nós. Às vezes, muitos meses ou anos, depois. Mas, sempre lembrados,
como ainda hoje o são, todos eles.
Muitos, já em viagem sem
volta, como o saudoso seu Nabor.
Figura doce, de agradável lembrança, este meu idoso amigo e
companheiro. Parceiro naquelas despedidas matinais, geralmente ocorridas
poucas horas antes de sermos brindados pela presença do sol,
confirmando o dia.
Companhia constante, também, à mesa do jantar nos navios da saudosa
"Società Italia".
Dotado de uma impassibilidade ímpar, era ele quem cuidava de toda a
documentação da carga e dos tripulantes. Atos a serem concluídos,
somente à última hora, na certeza da partida. E ele jamais (que eu
tenha presenciado, em muitos anos de convivência) teve qualquer alteração
em sua tranqüilidade. A
mesma placidez com que, calmamente, mastigava um pedaço de carne ou
polvo, entre aquelas rijas gengivas.
Essa calma era uma desculpa interessante, para que todos os que não
estivessem de serviço, ali se mantivessem à mesa, naquela "chiacchieràta"
como diriam meus amigos italianos; "a pretèsto di fàre compagnia
a Nabor".
Ali ficávamos nós, saboreando o vinho, a pequenos goles; fazendo-lhe
companhia e usufruindo daquela
sábia, simpática e inesquecível figura.
Depois, já de madrugada, a espera pela partida.
Invariavelmente, neste momento de partida de navios cargueiros, eram
muito poucas as pessoas presentes, em
contraste com o momento da chegada, que era sempre festivo e
acompanhado por uma multidão. Em
geral, trabalhadores que ali estavam à espera da atracação de seu
local de trabalho. Hoje, o que se vê, é um cais povoado de fantasmas.
Fantasmas de trabalhadores ainda vivos e fantasmas de navios ainda em trânsito,
porém, ausentes daqui.
Aquelas presenças constantes ficaram apenas na memória daqueles que
ali conviveram.
Santos definha, mas, o porto sobrevive... como palco de lembranças.
Carlos
Gama |