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O Diabo
Tinha Quatro Patas
O
primeiro animal de montaria que tivemos lá na chácara foi comprado de
um vizinho. Era cria de seu próprio sítio, um mestiço de "American
Trotter". Comprei para meu filho que estava, creio eu, com seus
quatro anos de idade. O animal foi batizado de Comanche.
Rebelde e maldoso, como ele só, o potreco foi crescendo e se tornando o
terror da vizinhança. Não foi capado e era só passar uma égua no
cio, que ele saltava a cerca de arame farpado, armando o maior pandemônio
na estrada.
Era o demônio em figura de cavalo. Certa feita ficou com as "mãos"
entaladas entre dois fios de arame. Passava pela estrada, o "João
Mineiro" que, percebendo o que estava acontecendo, pulou a porteira
e socorreu o animal.
O "bruxo" ficou quieto que só. Mas logo que se viu salvo
partiu pra cima do João, encurralou-o num canto de cerca, e cobriu de
coices.
O tempo foi passando e ninguém que topasse domar o endiabrado. Até que
surge o "João Louco", peão conhecido nas redondezas e bem
mais adiante! O apelido já diz tudo, topava qualquer animal que viesse.
Apareceu lá por casa, com aquela cara de quem não quer nada. Como se
tivesse chegado, apenas para um café e um dedinho de prosa. Conversa
vai, conversa vem, até que acaba entrando no assunto o nome do animal.
- É...Bicho ruim, né? - diz ele.
- Hum! -respondo eu, com um muxoxo.
- Dependenu..., Dá pra saí negócio!
E vem ele com a seguinte proposta: na troca pelo cavalo endiabrado,
oferecia uma porca parida, com toda a sua leitoada.
- Bicho bão de criá tá li!
Transmito a proposta ao meu filho, que era o dono do animal. Apesar de
ainda estar com uns seis ou sete anos, era bom de "rolo", que
só vendo. Mas, como a parada era grande, me olha de rabo de olho.
Percebendo o sinal, no meu beiço, ele truca e o João põe na parada,
mais uns trocados: um "servicinho" de dar umas
"quebradas" no potro baio que já havíamos comprado para
substituir o Comanche.
O negócio acabou se concretizando. Pegamos a porquinha caipira e sua
filharada, mais a promessa de lida com o Luar, e ele saiu puxando o
Comanche.
Depois de algumas semanas e muitas tentativas, o "João Louco"
sumiu com o bicho. Passara, o que nunca pode imaginar. E daí por
diante, andava sempre vestido como antes. Chapéu de boiadeiro e as
botas quase até os joelhos. A montaria, porém, passou a ser uma
bicicleta.
Mas vou em defesa das qualidades do peão. O João se agüentou bem, no
trabalho que sabia fazer. Caiu, quando teve que cair. Ficou em cima do
lombo, mesmo quando o animal saltou para dentro de um riacho encravado
entre altos barrancos. Porém, foi rebentado várias vezes depois de
montar, quando já recolhia o animal na cocheira. Pensando ter o controle da
situação, afrouxava na guarda, ficando encurralado e escoiceado. Era a
mesma situação, pela qual passara o "João Mineiro"; só
que, em ambiente fechado.
Êta cavalo endiabrado!
Até imagino, o "João Louco" se "livrando" dele e
dizendo, lá consigo:
"Vá pros diabo que o carregue, sô".
Carlos
Gama. www.suacara.com
06
de agosto de 2000 |