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O Desfile
Aconteceu na mesma agência bancária onde houve a indisposição com a boiada. Já falei da agência, mas não a descrevi e, isto se faz necessário, porque era uma daquelas agências bancárias, padrão nas décadas de sessenta e setenta. Uma frente estreita - em comparação com as de hoje - envidraçada e gradeada. Uma porta, localizada em uma das laterais. Lá dentro, um recuo de quatro ou cinco metros e um balcão em “L”, com três ou quatro caixas na parte da frente. Na lateral, o balcão de atendimento se estendia por muitos metros, e ao final deste corredor, a sala da gerência. Dentro do retângulo ficavam as mesas e as várias secções, com seus funcionários. Geralmente, mais no fundo, a conta-corrente, com suas máquinas “Burroughs”, com as quais se faziam os “lançamentos” , nas fichas de cartolina amarelada. Era ali, neste último reduto, que estava trabalhando o Magrão, depois do lance da boiada. Tinha gente que não podia mais vê-lo; gente que não esquecera e não lhe perdoara. A maior distância, e a ausência do contato direto com o público, favoreceram as brincadeiras do grupo do qual ele fazia parte. De conta-corrente, passara a se chamar “chacrinha”, o local de trabalho. Mas, no fim, mesmo criando aquele clima de balbúrdia, as chefias (o gerente e o sub, também contador) gostavam muito dele. Tanto pelo seu jeito simpático e respeitoso, quanto pelo clima de descontração que ele trazia ao grupo, que trabalhava sempre de bom humor. Mesmo naquelas inevitáveis noitadas em busca de uma “diferença”, quando metros e metros de papel das máquinas de somar se espalhavam pelo chão e o jantar acabava sendo um sanduíche e um refrigerante. Foi em uma dessas noitadas que o pessoal resolveu fazer um aposta a respeito de quem seria capaz de desfilar sobre o balcão, durante o horário de expediente. Ocorriam, durante o expediente – geralmente à hora do almoço – momentos em que não havia nenhum cliente na agência. Esse seria o momento adequado. Garanto que você não será capaz de adivinhar quem foi que se ofereceu para desfilar. Acertou! Isso mesmo, ninguém além dele, o Magrão. -Eu topo desfilar mas, nenhum “deles” pode estar pelo pedaço. Quem vai fazer a locução? -Eu faço! Diz “Tita”, uma das caixas e, à época, a “mina” dele. Os dias se passaram, até que um dos espertinhos vem com a novidade: o contador fora almoçar e o gerente ainda não voltara, de uma visita a um cliente. A agência estava vazia e era a hora ideal para o desfile. Lá vai o Magrão para cima do balcão e a Tita vai narrando o desfile. O corte da camisa; ele para, se vira para a platéia, cheio de trejeitos. O tecido e a cor; uma nova parada. A calça, os acessórios e, assim termina bruscamente obrigando-o a interromper a caminhada, gingante, pela passarela. -Vai terminar assim o desfile? Você nem falou sobre a cor das meias – diz ele, levantando a barra da calça. Aí é que ele percebe, do lado dentro do balcão, todo o pessoal estático. Quando se volta para o corredor, lá está seu André, o gerente, sério, observando a atuação. -Seu André, eu posso explicar! -Não precisa explicar nada. -Eu posso... -Eu gostaria que o senhor descesse do balcão e voltasse ao trabalho. No final do expediente eu quero de vê-lo em minha sala. Ao fim da tarde, desenxabido, ele bate à porta da sala da gerência e, entra. -Eu não vou puni-lo porque, afinal, o senhor é um excelente funcionário. E, embora tenha a certeza de que é o mentor da história, os outros todos também estavam envolvidos. Vou, apenas, adverti-lo através de uma carta, que o senhor pode – cá entre nós - desconsiderar. Apenas, não diga nada a ninguém! A advertência (informal) foi espalhada a todos os colegas (vinte e tantos, quase trinta anos depois) há uns dois anos, em uma festa do pessoal daquela época. E, até o seu André (agora, velhinho) caiu na gargalhada, dizendo: -Nem o tempo e a idade deram jeito em você!
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| Carlos Gama. "www.suacara.com" |
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25 de março de 2002 – 18:48 h |
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