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No País dos Caraduras
Depois, um
grande magote de “puritanos” falsos ou legítimos (se é que existem esses
últimos) acha que o Zé da Bronca é um tipo boca solta, de hábitos apelativos
(no sentido da gíria: sair da linha, extrapolar...), mas não há como ter
classe para falar de gente que nem sabe o que isso significa, pois são desclassificados. Vou contar uma pequena história ocorrida ontem, e muitos dirão que eu sou miserável. Ora, onde já se viu escrever um texto e montar uma página por conta de alguns centavos. Como diria seu Cabral: a terra é generosa, a gente, muito bondosa... E, com isso os espertalhões se aproveitam. Vamos à história de ontem. Saí com três procurações, em uma pasta, debaixo do braço e fui em busca dos cartórios onde deveria reconhecer as firmas nos tais documentos. No primeiro deles, uma fila enorme (levei 40 minutos até ser atendido), mas que proporcionou–me muito divertimento e até algumas caras feias. Na minha frente estava um velhote (mais velho que eu, uns dois anos) circunspecto, com aquela sisudez característica das pessoas tímidas. Depois de algum tempo em silêncio eu ouvi: o próximo! -Brasileiro aprecia uma fila só por causa de ser o único lugar onde o próximo é sempre lembrado – disse eu. Ele esboçou um sorriso forçado, de quem não achou graça nenhuma, mas pretendeu ser cortês. Passa por nós um rapazote, funcionário do cartório e envereda por um local em cuja porta de acesso estava escrito: Banheiro Unissex. Dirigi-me ao meu companheiro de fila e perguntei se ele sabia o que significava aquilo. E ele, depois de ler, me responde que nunca havia visto uma placa como aquela. Desta vez, com a minha observação, ele riu e algumas senhoras mais puritanas olharam-me de cara fechada e expressões de muita crítica, só por eu ter dito, em tom audível a quase todos (estava distraído e sou meio surdo – física, não mentalmente!): “esse banheiro deve ser aquele onde alguns homens urinam sentados e umas tantas mulheres, em pé”. Essa última “tirada” quebrou o gelo, nós ficamos conversando e nem percebi o tempo passar; quando ouvi chamarem o próximo percebi que esse próximo era eu. Enquanto aguardava a conferência da firma eu olhei em torno e encontrei uma pequena tabela (pequena, com as informações necessárias, e muito claras) onde pude ler que o custo daquele reconhecimento de firma era R$ 2,07. Fiquei matutando sobre essas práticas de colocarem valores quebrados, quando no Brasil não fazemos questão de receber e muito menos (temos vergonha) de cobrar o troco em moedas de pequeno valor. Quando entreguei a nota à jovem do caixa, eu lhe perguntei se tinha troco. Pois se tivesse, eu lhe daria dez centavos, em caso contrário iria lhe dar apenas cinco centavos, como complemento. Quando ela afirmou, com naturalidade, ter o troco necessário eu lhe entreguei, juntamente com a nota de cinco, uma moeda de dez centavos. Não acreditei muito na afirmativa, daí ter ficado surpreso e contente, quando ela me entregou três notas de um real, três moedas de um centavo e a nota fiscal (onde consta, além do nome do cartório, o nome do titular, o CNPJ, o número daquela nota e outras tantas informações exigíveis). As coisas estão mudando – pensei. Agradeci, desejei-lhe uma boa tarde, e saí do 2º tabelião, a caminho do 7º, onde deveria reconhecer duas outras firmas. Este outro estava quase vazio, mal deu tempo de colocar o meu guarda-chuva num canto, e a jovem escrevente me chama ao balcão; eu já era o próximo, e o único. Dois carimbos e dois selos depois, ela me diz: -Cinco reais! -Cinco reais? -Sim! -Eu acabei de pagar R$ 2,07 por um reconhecimento de firma... -Houve algum engano – diz ela. Ela já havia me dado cinco notas de um real, como troco da nota de dez que eu lhe dera. -Me veja, por favor, a nota fiscal. Com ar meio contrafeito ela preenche (num talonário sem número – só percebi isso quando estava em casa) a nota, especificando dois reconhecimentos de firma R$ 4,20 e duas xerox R$ 0,80 (eu pago R$ 0,10 por cada cópia)...Total R$ 5,00. -Que xerox são essas? – pergunto. -Não tem xerox? -Não senhora! Ela rasga a tal nota (fria), emite uma outra, que está em meu poder (onde consta: duas xerox R$ 4,20), e entrega-me oitenta centavos, como troco. Alguma coisa anda muito errada. Você não acha? Ou o outro
cartorário elaborou uma tabela própria, que o faz jogar dinheiro fora, ou esse
último assalta o cidadão, na maior caradura. Daí, só gritando a plenos pulmões: Porra meu! Que zona. Carlos Gama. www.suacara.com
Santos,
14 de outubro de 2003 – 23,44 hs
PS: as correções ortográficas virão depois, porque estou com sono e quero colocar esta página no ar, agora (01:00 hora de 15 de outubro). |
