|
Nati ed Oriundi
É
verão, mas a tarde alegre e ensolarada, na capital paulista, dá a
impressão de outono. Os corpos pesados, do lauto almoço, repousam nas
almofadas soltas e macias, sobre o sofá da sala.
Que preguiça gostosa!
Depois de uma interessante seleção de gols - de um passado futebolístico
que já não tem mais similares – a família do Magrão se defronta com a apresentação
das provas de um torneio de inverno nos Estados Unidos. Um excelente
programa, ressalvando-se, apenas, a ausência da íntegra das provas.
Apresentavam somente a performance do primeiro colocado.
Mas essas provas de inverno acabaram conduzindo a uma conversa sobre o
inverno na Europa, a neve, o gelo...
-Falando nisso, a gente até que podia ir tomar um sorvetinho, ali na
padaria. Que tal?
-Santa gula, mama mia! Você não acabou de dizer que está afrontada,
que comeu demais?
-Ah! Mas um sorvete não pesa...Depois, a gente pode dar uma caminhada, e
essa saída é até um pretexto para isso mesmo. Uma andada, agora, com
este dia lindo e o sol ameno, pela Avenida Sumaré, vai fazer muito bem.
-Va bene, andiamo - diz o outro, já com os olhos brilhando, por conta
das delícias de um sorvete.
-Vamo pai?
-Hum! Não sei, estou sem vontade de ir trocar de roupa.
-Vamos, pai! Um sorvete sempre vai bem.
-Andiamo si, si! Seu pai e eu si vestimos, num instante.
Mas,
como os mais velhos também vão, acabam indo de carro. E, já que há
a facilidade da condução, alongam-se na ida e percorrem a Sumaré, de
cima a baixo, tentando decidir onde tomar o sorvete.
Creio que você já deva ter percebido o resultado deste percurso e qual
terá sido a decisão sobre o local, não?
-Não?
Uma família de italianos e de oriundi, logo que bate os olhos ali,
decide:
-Parmalat?
-Ma, chiaro!
Como? Você não sabia que o Magrão é filho de italianos? Ele mora em
Santos mas nasceu no Brás; a família, quase toda, ainda mora em São
Paulo.
Bem, voltemos à sorveteria!
Mas, onde estacionar, naquelas imediações? Voltas depois, ao passar
novamente defronte à sorveteria, uma vaga vai se abrir. Sinal de braço
indicando, ao “profissional” condutor do veículo que vem atrás,
que vão entrar naquele local e que ele passe pela esquerda. Deve
ser a primeira corrida do dia, depois de muitas horas, ou ele brigou com
a mulher e saiu para trabalhar sem almoço; porque insistiu em ir
avante. Um pequeno avanço, só para facilitar as coisas e ele possa sair com mais
facilidade mas, não adianta nada; ele permanece e buzina, forçando a
darem mais uma volta no quarteirão e à perda daquela vaga.
-Vai, pazzo, fominha!
- diz o Magrão, para fazer chacrinha. Isso é próprio dele,
mesmo.
-Pezzetto di asino! - Diz o nono, entusiasmado.
Espreme daqui, manobra dali e conseguem estacionar, um pouco adiante.
-Enfim!- dizem alguns. Mas é o que estava na cabeça de todos.
Depois de tanta dificuldade, até a digestão vai adiantada.
-Per fortuna! Uma mesa disponível.
O Magrão se aboleta, imediatamente, para
garantir o lugar dos mais velhos e, claro, não precisar pôr a mão no
bolso.
Diz o letreiro: duas bolas, 120 gramas, R$ 4,00. Duas bolas de sorvete,
uma quantidade razoável, como sobremesa.
-Casquinha ou copinho? – pergunta o jovem atrás do balcão.
-Gasquinha! – responde de pronto a matriarca.
Quando olham a miséria que vem na tal da “casquinha”, todos desistem
e fazem a opção pelo copinho.
-Para mim, chocolate e menta com chocolate, diz o mais velho do grupo.
-Quando o último deles, após uns cinco minutos, se acomoda, o nono está
olhando para todo mundo, completamente desapontado. Olhos tristes, boca
aberta e a colherinha vazia.
Você ainda não viu um italiano perguntar ao outro o que está
acontecendo? – Não sabe o que perde! Eu vou descrever e você
acompanha fazendo os gestos; está bem?
Estenda os antebraços na horizontal; separe, abrindo em
direção às laterais, as duas mãos com as palmas voltadas para cima e
os dedos espalhados - como se estivesse se preparando para receber algo. Acompanhe esse gesto, com um arregalar dos olhos,
um abrir levemente a boca e o movimento da cabeça para cima, erguendo o
queixo.
Pode também, se preferir, substituir esse movimento de mãos,
anteriormente descrito, pelo juntar das pontas dos cinco dedos.
-Lula, você não!
Com as pontas dos dedos unidas, faça o movimento do pulso, para frente
e para trás, acompanhado pelo mesmo movimento de cabeça descrito
anteriormente.
-Conseguiu perceber? Era essa, a cena proporcionada pelo grupo.
Inquirido sobre as razões da tristeza, ele explica, mostrando o
“copinho” vazio e o golpe das duas bolas. Tinha sido pior que um
golpe nas bolas. E o nono fazia cara de criança cujo doce caiu ou foi
tirado.
-Ladri! Diz ele.
O copinho tem uma reentrância, muito bem disfarçada, que dá a impressão
de ser maior (menos menor) que a realidade. O atendente “enche”, com
a devida delicadeza (para não colocar mais que a quantidade determinada) o copinho,
com a primeira bola. A segunda bola, ele
coloca sobre esta, apenas em uma das laterais.
Além de tudo, a colher de sorvete (que faria a bola), é uma colherinha
chata; um belíssimo engodo.
-Quelo cucchiaio è uno imbroglio! Diz o nono, revoltado – Qui, non
torno più.
Incentivado pelo Magrão,
o nono se despede:
|