Moral e Cálculo Renal.

 

Manhã dominical de sol e carnaval nessa terra de ninguém, ou melhor, de meia-dúzia. Terra onde nós, estarrecidos com a falta de cérebro do patrão, observamo-lo trotando pela avenida Sumaré – de tênis, calção e óculos escuros - acompanhado de um “segurança”, e esse coitado, sob o sol inclemente do meio-dia, vestindo terno preto, gravata e sapato social, tem que acompanhar o ritmo da cavalgadura a seu lado.

Parece-nos que a maioria dos cérebros humanos, nos dias atuais, está preparada, apenas, para ganhar dinheiro e juntar bens inúteis, pois, se esse cérebro luminoso que pode arcar com o custo e o esnobismo de ser acompanhado por um segurança de terno e gravata, é sinal de que ele sabe como ganhar o dinheiro que banca os “fatos” mas, em contrapartida não lhe sobra um mínimo de espaço racional para perceber que essa história é igual àquela do agente secreto, que traz ao peito um distintivo que o identifica como tal.

Será que, se esse guarda-costas usasse os mesmos trajes que patrão, ele não estaria mais satisfeito, mais bem disposto e mais bem qualificado para defendê-lo se, além disso, ainda contasse com o elemento surpresa?

Bem, deixemos de lado esses comentários inúteis pois, como diria o meu saudoso amigo Queirolo: Tu escreves para a compreensão de uma minoria.

Vou à farmácia, que é o meu destino mas, como sempre, não posso deixar de observar as coisas contraditórias, que acontecem nesse país dominado por uns poucos senhores, e volto às minhas cáusticas observações do cotidiano.

Está completando um ano a edição de uma norma que, sob o pretexto de reduzir os acidentes ocorridos com o uso do álcool líquido, proibiu a sua comercialização, exceto em drogarias (em recipientes de, no máximo, 50 ml).

Em substituição ao álcool líquido, deveria entrar em uso o álcool em forma de gel, de preço três vezes superior ao do outro.

Os comerciantes poderiam liquidar os seus estoques do produto, dentro do espaço de 180 dias, prazo estabelecido pela norma para a adequação à determinação legal. Porém, nas prateleiras das farmácias, bem como nas prateleiras dos supermercados, estão expostas, livremente, as “legalmente proibidas” garrafas de um litro, contendo álcool líquido, agora a preço triplicado.

Mais uma piada sem graça – um aplique – como a proibição de venda de acetona, éter, benzina e outros elementos químicos, pretensamente usados no refino de substâncias tóxicas; como se alguém fosse estar comprando 100 ml de algum desses produtos para, com eles, promover o fabrico e garantir a sustentabilidade do tráfico de entorpecentes.

Por detrás de todas essas inutilidades jurídicas estão os interesses espúrios de alguns, como no recente episódio da obrigatoriedade (sujeitando a severas penas pecuniárias) da compra e manutenção dos “kits” de primeiros socorros, em todos os veículos automotores. Depois que o povo “bancou” o enriquecimento rápido de alguns legisladores e de uns tantos fabricantes desses kits, a norma perdeu a vigência, por conta da ausência de vergonha.

E o povo, kissi...!

Ou esses "cérebros" (do tamanho da moral ou de um cálculo renal) passam a agir de outra maneira, e a coisa pública começa, definitivamente, a ser levada com seriedade ou continuaremos a ser, meramente, uma extensão do Puteiro da Candinha.

Carlos Gama. www.suacara.com 

02 de março de 2003 – 12:58 hs