“Não pode ser divino o que permanece imóvel”.

 

Desta frase, de Helena Blavatski, Miroel Silveira parece ter extraído toda a essência-energia que o motivou a exercer múltiplas atividades. Fosse como escritor, pois começou sua carreira escrevendo contos; como teatrólogo, dedicou a esta arte 50 anos de sua vida; ou esportista, já que se manter em atividade era, para ele, imperioso.

 

Santos era a cidade que vivia em seus sonhos.

 

Santista, nascido no dia oito de maio de 1914, devoto de Nossa Senhora do Monte Serrat, Miroel nutria intensa ligação com sua terra natal, a ponto de sonhar com ela, repetidamente: "Nos meus sonhos a imagem freqüente é a de um jardim localizado em uma ruazinha próxima ao Corpo de Bombeiros, que aparece como um refugio. O estranho é que nunca morei ali, mas a relação com o lugar é muito forte".

Desde cedo ele manifestou sua vocação teatral, atuando em apresentações no Grupo Escolar Visconde de São Leopoldo (onde fez o ensino primário) e no Teatro Coliseu. Sempre esteve presente nas manifestações culturais da cidade, colaborava, inclusive, com os jornais A Tribuna e com o Diário, enviando artigos críticos e irreverentes; foi, também, um dos fundadores da Comissão Municipal de Cultura, que em agosto de 1942 convidou  Érico Veríssimo, para realizar uma palestra, no Cine Carlos Gomes (cinema de bairro), denominada  "Na oficina de Frankstein" e, foi ele, Miroel quem fez as saudações ao escritor gaúcho.   Teve passagem meteórica pelo Pesquisismo (O grupo de jovens que, na década de 40, se reunia para criar um movimento que superasse as limitações herdadas do Modernismo). Participavam dos encontros deste grupo, entre outros; Cid Silveira (chamado de papa, pelos pesquisistas); Francisco De Marchi, mais um autor de qualidade que continua ignorado; Roldão Mendes Rosa, que só teve sua obra poética publicada, postumamente; Cassiano Nunes, valoroso literato santista, hoje vivendo em Brasília; e o poeta Narciso de Andrade, que costuma negar que tenha participado do grupo.

Porém, não foi apenas ao mundo cultural que Miroel se dedicou. Como tinha veneração pelo mar (considerava-se filho de Iemanjá) chegou a ser professor de natação e tornou-se também presidente da Associação Santista de Esportes Aquáticos, além de  praticar tênis. Fazia ginástica diariamente e depois dos 60 anos, resolveu aprender capoeira, não apenas para manter a forma física mas, também, por que era um apaixonado pela cultura popular.

 

No gen, o amor pela escrita e pelo teatro.

 

Tudo indica que as duas paixões de Miroel: literatura e teatro procedem da mistura do sangue materno e paterno. Era filho de Valdomiro Silveira (considerado um dos criadores da chamada literatura regionalista paulista cuja obra mais conhecida é Os Caboclos) e de Maria Isabel, que escreveu inúmeras páginas de humorismo sob o pseudônimo de baronesa do Itororó. Seu tio, Agenor Silveira, foi filólogo e grande amigo de Martins fontes. A irmã, Isa Silveira Leal escreveu para adolescentes e seus primos – irmãos também caminharam com sucesso pelos campos da arte. Dentre eles, Dinah Silveira Queiroz, autora de Floradas na Serra (que virou filme, com Cacilda Becker e Jardel Filho)  e A Muralha que (foi representada no radio e  na televisão, com adaptação de Miroel, o que lhe valeu o premio Roquette Pinto); Helena Silveira também escritora;  o escritor e tradutor Breno Silveira e o poeta santista  Cid Silveira. O teatro, por sua vez, chegou a Miroel através da herança de seus avós maternos, que mantinham estreitas  ligações com esta arte.

 

Literatura - um jogo solitário.

 

Desta forma Miroel definia a arte de escrever - prática bem difícil, naquela época. Ele, que se iniciara simultaneamente com Erico Veríssimo e Jorge Amado, sentiu imensa dificuldade na divulgação de seu trabalho, por não estar ligado às editoras, como estes. Aliás, pouco se escreve sobre essa época florescente - década de 40 - quando ocorreu o surgimento de uma variedade de bons escritores como: Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Joel Silveira, Ligia Fagundes Telles, entre tantos outros. Para Miroel, a literatura exigiria um aprimoramento constante e muita dedicação. Quando sentiu que seria difícil sobreviver apenas do que escrevia, resolveu partir para o mundo do teatro onde, segundo suas palavras, recebeu a compensação do convívio humano; algo muito importante em nossas vidas.

Como escritor produziu três contos: Bonecos de Engonço (l940 - Editora Vecchi – Rio de Janeiro) que recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, por ele recusado, publicamente; dois anos depois publica Clube de Nudistas (Livraria Globo - Porto alegre), e só voltou a publicar em 1966 - depois de 22 anos de ausência - “Caiu na Vida” (Editora Civilização Brasileira). Escreveu, também, uma novela ”O Mistério do Anel”, que recebeu o prêmio Antonio de Alcântara Machado, pela Academia Paulista de Letras. Dedicou-se também à difícil arte de traduzir (um meio de não abandonar a literatura) e, por sua tradução de César e Cleópatra (de George Bernard Shaw), recebeu o título de melhor tradutor, concedido pela Associação Paulista de críticos teatrais. Enveredou também pelo mundo do cinema, fazendo o roteiro do engraçado filme “Simão, o Caolho” - obra de Galeão Coutinho.

 

RIO - a Meca das artes cênicas na década de 40

 

Quando o clima da segunda guerra mundial ainda pairava no ar, ocorre uma radical mudança na vida de Miroel. Ele abandona a carreira de advogado (formado em l936 - aos 22 anos - pela Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo), profissão que tentou exercer por cinco anos, separa-se de sua mulher Miriam Mendes (irmã do compositor e maestro santista, Gilberto Mendes) e muda-se, em 1942, para o Rio de Janeiro, cenário importante nos acontecimentos artísticos brasileiros, assumindo a função de crítico teatral, em O Jornal. Não muito tempo depois começou a colaborar com a “Companhia Dulcina e Odilon” para, logo em seguida, tornar-se diretor artístico da primeira Companhia de Bibi Ferreira, fazendo a adaptação teatral de “A Moreninha”, quando estreou no palco a atriz Maria Della Costa. Ainda no Rio, foi um dos que ajudou a profissionalizar o grupo amador “Os Comediantes”, assumindo a sua direção, com a ajuda de Ziembinski. O dramaturgo santista é comumente lembrado como o  responsável pela descoberta de Cacilda Becker, que era bailarina, antes de ser atriz. Assistindo sua apresentação de dança em “A Lenda de Um Beijo”, convidou-a tentar a carreira no Teatro do Estudante, no Rio, dirigido por Pascoal Carlos Magno.

 

Teatro - uma força viva e, forma de sobrevivência.

 

Aos 71 anos - um ano antes de morrer - dizia que, enquanto muitos na idade dele, penduraram as chuteiras, ele , operário  das artes que era, morreria trabalhando. E cumpriu o prometido, pois, decidido a transmitir sua experiência para os iniciantes na área, atuou, no ano de 1985, como diretor da escola de Arte Dramática, da USP, dirigindo a peça “Natan, o Sábio” (do alemão G. Lessing), representada em escolas estaduais. Era de opinião que, as universidades deveriam trabalhar com as comunidades.

Provando que não parara no tempo-espaço realizou Miroel, outro feito: foi sob sua direção que Marisa Orth, fez sua primeira aparição como profissional.

Ele que passou a vida inteira ajudando os outros, infelizmente não mereceu, ainda, o reconhecimento; no entanto, dele podemos dizer, sem sombra de engano, que exerceu até o fim, a sua condição de criador decente e independente, mantendo a consciência tranqüila e o senso da missão cumprida.

 

Valdir Alvarenga.

Mirante