O Manto Cor do Tempo(Guilherme de Almeida)
Eis que venho de longe e sou tão pobre! Não acreditas que eu apenas tenha o manto cor do tempo, que me cobre. É um trapo. Mas nas dobras da estamenha, que andou de sol a sol, de lua a lua, É bem possível que comigo venha, preso aos ásperos fiapos de lã crua, um pouco de que é o mundo e do que é a vida: -laivos de céu azul; poeira da rua; restos de arco-íris; pétala caída; penugem que escapou à fuga alada e alta das estações; fímbria perdida do véu de noiva de uma estrela aluada; farrapos de neblina e de folhagem; migalhas de sol-posto e de alvorada; sobras levianas de libertinagem do luar...-Venho de longe e sou tão pobre! Mas trago a eternidade na miragem do manto cor do tempo, que me cobre.
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