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Krahô-Kanela Enquanto
os donos da terra são impunemente queimados, ou covarde e imoralmente
expulsos de suas terras de origem e de suas moradas, alguns “empresários”
que já mantiveram ex-dignitários máximos ao cabresto curto enquanto
posavam de primeiros-ministros, agora
sobraçam outras altas autoridades, qual embrulhos, pelos gabinetes dos
Tribunais e das Casas Legislativas, tentando influenciar seus ocupantes
no momento mais propício, que é quando existe um desgaste político
entre os Poderes. Carlos Gama. 07 de novembro de 2003. |
| O texto que se segue, enviado por Dra. Armanda Figueirêdo, foi recebido ontem, através do Boletim nº 291 de Guerreiros Anticorruptos, e colocado nesta página com a autorização da remetente. |
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JUDEUS
ERRANTES BRASILEIROS
Hoje será mais
um dia de expulsão dos Krahô-Kanela. Vejam o relatório abaixo.
São rejeitados pelos fazendeiros que invadiram suas terras, mataram
seus bisavós, avós e pais, e os expulsaram. Não são bem quistos
por outros índios e agora molestados pelos assentados do
INCRA, na Lagoa da Confusão, em Tocantins..
Foram reconhecidos pela FUNAI, conseguiram a formação de Grupo
de Trabalho para estudo e demarcação de suas terras, mas de novo vão
botar os trens na cabeça e prosseguir sem rumo
certo, até um dia em que possam pisar no chão que foi de seus
antepassados.
Estou muito triste com tudo isto. Além dos contatos esporádicos que tivemos em Brasília, em julho deste ano passei três dias convivendo com os Krahô- Kanela. Lá na casa onde habitavam com algumas choupanas de palha ao redor para completar o abrigo das oitenta pessoas ali amontoadas. Apesar da pobreza, fizeram-se de anfitriões, houve danças, pintaram meus braços com tinta de jenipapo e pó de carvão. E eu ensinei Noé a cantar o coco do nordeste, fazendo a batida do ritmo na palma da mão. De noite, à roda da fogueira, porque lá não havia energia elétrica. Ainda tive oportunidade de ver as luzes das motocicletas dos seguranças dos fazendeiros, rondando a casa. O GT da FUNAI já esta lá, e pousada dentro de casa somente para as duas moças - Graziela Antropóloga; e outra, Engenheira. Os homens dormindo em barracas de campanha. Os Krahô - Kanela vão deixar a beira do rio onde pescavam peixes enormes . Espero, sinceramente, que o pouco dinheiro da FUNAI seja suficiente para pagar em dia o aluguel das casas em Gurupi , para onde querem levar Mariano, Argemiro, Sebastião e sua gente. A mãe já peregrinou muito. Viu Mariano passar um dia inteiro amarrado a uma árvore, jurado de morte a todo momento. Chorou tanto a velhinha, implorou, se humilhou e a vida de seu filho foi poupada. Poupada para continuar a ser expulso em sua terra, a cumprir uma diáspora de índio pobre, dependente da FUNAI e da FUNASA, a prosseguir no sofrimento que não interessa a jornalistas, nem a poderosas redes nacionais de televisão. Interessa a algumas pessoas que ainda têm a capacidade de chorar as pequenas grandes tragédias do cotidiano brasileiro. E a algumas organizações que teimam em lutar pelo direito daqueles que um dia foram donos do Brasil e hoje são os escorraçados de sua própria terra. Eu hoje tenho motivo para chorar pelos Krahô- Kanela. Armanda Figueirêdo
As tentativas de
solucionar esta situação vêm se desenvolvendo desde setembro de
2001, época em que o povo retomou à terra reivindicada e
sofreu uma ação judicial de despejo. Nesta ocasião eles foram
colocados provisoriamente neste local, devido à sua proximidade com a
terra Mata Alagada, após muita resistência dos assentados.
Desde agosto de 2001, após viagens consecutivas das lideranças Krahô/Canela à presidência da Funai e 6ª Câmara, em Brasília; Ministério Público Federal, em Palmas e Administração regional da Funai, em Gurupi, só em julho de 2003 a Funai contratou o GT (Grupo Técnico), para os estudos de identificação e fundiário da referida terra. Durante todo este período o povo viveu em constante situação de conflito, ora eram ameaçados pelo fazendeiro que hoje se diz proprietário de Mata Alagada, ora eram ameaçados por moradores do assentamento Loroty. O clima de ameaça se intensificou a partir do estudo fundiário ter constatado que 09 lotes do referido assentamento incidem sobre a terra reivindicada pelo povo. A partir daí, os posseiros, sentindo-se ameaçados de perder parte de suas terras, usaram como argumento para expulsar o povo, o fato do prazo de dois anos dado para que eles ali permanecessem, ter-se esgotado no dia 30 de outubro deste.
Os trabalhadores
alegam que haviam enviado documentos à Funai e ao Incra, informando
do vencimento deste prazo e solicitando a retirada dos indígenas da
sede do assentamento. Diante do silêncio destes órgãos, no dia 02
de novembro, um grupo composto de 300 pessoas, moradoras do
assentamento, bloqueou a entrada da sede, fazendo reféns todo o povo
Krahô/Canela que se encontrava ali no momento, funcionários do
Itertins (Instituto de Terras do TO), Funai e Incra, que concluíam o
estudo fundiário da terra indígena Mata Alagada.
Na tentativa de solucionar o conflito entre os trabalhadores rurais e a comunidade indígena, na tarde no dia 03/11, se deslocaram para o local, representantes da Funai e do Incra/ TO e de Brasília, Procurador da República no Tocantins, Dr. Adrian Pereira Ziemba, Srta. Fátima Dourado e Sr. José da Conceição, pelo Centro de Direitos Humanos de Palmas, 04 agentes da Polícia Federal, e ainda, Martone Fonseca Vieira e Filogonio Luís, pelo Conselho Indigenista Missionário, regional Goiás/Tocantins. Durante a reunião realizada no dia 03/11 à noite, em uma escola no assentamento, entre o grupo citado acima, (saiu) uma comissão dos assentados e sem a presença dos indígenas, por exigência desta comissão.
Segundo relato dos
assentados, esta ação se deu, devido ao descaso do órgão
indigenista em resolver a situação que se prolonga por mais de dois
anos, ou seja, desde setembro de 2001. E que esta decisão de retirada
do povo é definitiva, sendo que qualquer insistência em sua
permanência neste local poderá ter sérias conseqüências,
diante da atitude irredutível dos assentados pela permanência do
povo na sede do assentamento.
Foi dito pelo
Dr. Adrian, que o MPF (Ministério Público Federal) vem acompanhando
este caso desde seu começo. Ele disse ter claro que o
melhor para o povo seria sair para sua terra, mas naquele momento e
diante do conflito existente seria estratégica a retirada imediata
deles para outro local e que se comprometia a estar cobrando da
Funai agilidade em solucionar definitivamente a situação.
A Funai, por sua
vez, se compromete diante dos assentados, do MPF e das outras
entidades presentes à reunião, na retirada do povo para
uma chácara nas proximidade de Gurupi e que a estadia será provisória,
pois nos próximos dias estará providenciando o aluguel de uma
fazenda, no município de Dueré, onde os indígenas poderão
plantar suas roças e aguardar o término do processo de regularização
de sua terra.
Finda a reunião com a comissão, todos se dirigiram ao local onde estão os indígenas e os outros reféns. Fez-se a leitura da ata lavrada durante a mesma, onde ficou definido pela retirada do povo, até as 18 horas do dia 04/11, e que durante este período a Polícia Federal permanecerá no local para garantir sua segurança. Após a leitura da ata o cacique Mariano disse que, "qualquer lugar, hoje, é melhor do que aqui, porque se não sairmos poderá acontecer um massacre, a Lei não existe para índio, pois estamos mais uma vez sendo transferidos para outra terra que não é a nossa, a Mata Alagada". Após esta fala do Cacique Mariano, Martone diz ao povo das inúmeras tentativas feitas para ter acesso a eles antes da reunião, e que, em todas elas lhe foi negado este acesso, pelos trabalhadores. Reafirma o compromisso do Cimi com os povos indígenas e o respeito ao protagonismo destes, dizendo que a decisão em sair ou permanecer naquele local é inteiramente deles, porém, acredita que neste momento a melhor solução para a comunidade é a saída para garantir sua integridade física.
Diante desta fala o
cacique retoma a palavra e diz "no clima que está, eu saio
daqui com o meu povo até a pé e com as nossas coisas na cabeça".
Diante desta decisão, a Funai assume o compromisso de providenciar transporte para as famílias até o local onde estarão alojados nos próximos dias e as autoridades ali presente assumiram o compromisso de se reunir no dia 13/11/03, para se inteirarem da situação em que o povo se encontra e saber das providências tomadas pela Funai para solução deste caso.
O
Dr. Adrian se comprometeu com o povo Krahô/Canela de estar
acompanhando bem de perto a situação deles.
Estas são as informações que temos até o momento, porém, encontram-se junto ao povo Krahô/Canela dois missionários do Cimi, acompanhando a retirada deles do assentamento, nesta tarde, e sua instalação na chácara, em Gurupi, conforme compromisso assumido pela Funai. Tão logo tenhamos mais informações desta operação, estaremos lhes informando. Coordenação do Cimi GO/TO Palmas, 04 de novembro de 2003.
Obs: A imagem e o som de fundo são oriundos da página da FUNAI.
O endereço da página de Guerreiros Anticorruptos é: http://www.guerreirosanticorruptos.org/
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