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Judeus e Muçulmanos
O
jornalista, já não muito jovem, andava abatido e desiludido com a
vida. Depois de dezesseis anos de expectativa, conseguira ser pai,
quando já andava com quarenta e dois anos.
Porém, a vida simples em bairro de periferia favorecera o surgimento
de uma salmonela, no organismo do menino, devida talvez à água de poço.
Lá se iam meses, labutando e orando, com o menino entre a vida e a
morte.
Os cépticos diriam que era coincidência, os religiosos que fora a
providência Divina mas, enquanto caminhava pelas ruas da capital a
caminho do trabalho, ele se depara com a Rosinha (para você e para mim,
Dona Rosinha), irmã de seu velho amigo Michel, a quem não via fazia
algum tempo.
A amizade de longa data, faz com que se esqueçam dos compromissos, em
troca de alguns minutos de prosa agradável.
Durante a conversa ele comenta que tem um filho que está doente, à
beira da morte.
Ela conta que também estava casada e, com um médico pediatra.
Fornece-lhe o endereço e diz a ele que leve o menino ao consultório do
marido.
Um consultório, na sala da frente da casa, sempre abarrotado de gente,
na rua Barra do Tibaji. Bem, não era para menos, além da capacidade,
da dedicação e do carinho, esse médico judeu não cobrava as
consultas de quem não pudesse pagar.
Ao chegar a sua vez o menino é atendido e o doutor diz ao pai que, nos
Estados Unidos acabara de ser desenvolvido um medicamento que
possivelmente solucionaria o problema. Mandou vir de lá a droga e, foi assim que ele
salvou a minha vida, pela primeira vez.
Ele já partiu do mundo terreno, mas eu guardo na lembrança,
permanentemente, a doçura dos olhos amorosos, por detrás daquelas
lentes grossas.
Seu nome?
Não importa! O que é um nome perante a grandeza daquela alma?
Há pouco, minha filha Fernanda fazia um comentário sobre “seres
especiais”.
Dizia ela: a doutora x não tem celular, para manter a sua
privacidade. Quando sai do hospital ou do consultório e não está em
casa, como é que ficam os pacientes dela? O doutor Salomão é o
oposto. Além de dar o número do celular aos pacientes, ele mesmo liga
para a casa deles, para ter notícias e fazer o acompanhamento.
Quantas vezes ele ligou aqui para casa, na semana passada, a fim de
saber do Fernando?
Foi esse comentário dela que despertou as minhas lembranças, do doutor
Theodoro Lerner e me levou a escrever essas poucas linhas.
Nem sei se o doutor Salomão é muçulmano, apesar da ascendência árabe.
Também, pouco importa; é tudo a mesma coisa!
Ambos, seres humanos.
Humaníssimos!
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