Jararaca.



Vou lhes contar uma história que aconteceu no Guarujá, faz mais de cinqüenta anos. 
É a respeito da jararaca e como pode uma criança de um ano de idade, perder a vida dentro dela.
Vocês - entendidos em cobras - provavelmente dirão que é mentira, que se fosse uma sucuri, poderia até ser...
A outra testemunha já se foi. Hoje, teria noventa e cinco anos. Mas, quem sabe, lhes contando a história toda, eu consiga convencê-los!
Apaixonado por sua terra, o santista morador em São Paulo não perdia uma ocasião de estar junto ao mar. Apesar do apelido de "mal afogado".
Desta feita, trouxera o primogênito ( rebento de lenho velho ); ia o pai além dos quarenta.
Na praia de Pernambuco tinha ele um amigo caiçara, o seu Narciso. Para ele era só Narciso. Coisas da amizade!
Caiçara "da antiga", seu Narciso sabia tudo de mar, de peixe, de tempo e também sabia muito de céu - conhecia as constelações com intimidade, uma a uma, pelo nome. Era de fazer cair o queixo a qualquer doutor, "olhador de céu com luneta". Tinha ele, além de todos estes conhecimentos, uma velha companheira, uma canoa, com a qual buscava o sustento da família. 
Ela ficava abrigada debaixo de uma choupana de sapé - armada sobre as pedras - logo à direita de quem chegava à praia de Pernambuco.
Foi ali mesmo, naquele pedaço de praia - entre quem chega, e a "Ilha do Mar Casado"- que se fizeram ao mar na canoa, o pai e seu rebento. 
O guri ia na proa, sentado no fundo. O pai na popa, remando. Sequer uma brisa a turvar a superfície verde. O céu límpido era só azuis. 
De repente, fora da zona de arrebentação, começa a surgir do nada - como a corcova de um camelo - uma onda que, rapidamente se avoluma.
Força no remo tentando vencê-la antes que rebente, mas não dá. Ela estoura exatamente sobre a proa e vem lambendo tudo, jogando no mar o canoeiro.
Enquanto afunda e na volta, tentando chegar à superfície, desesperado pensa: " se o menino se afogou, eu não volto; me afogo aqui, com ele ".
Dizem que aquele dia branqueou os seus cabelos.
O nome da canoa era Jararaca.
-Se o menino morreu? É claro...que não! Se tivesse morrido, não estaria aqui lhes contando a história.




Carlos Gama. "www.suacara.com

Agosto 1999.