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Abro
o jornal de hoje, domingo, com a mesma intenção (jamais cumprida) de sempre:
ler apenas os escritos de nossos cronistas dominicais. Um
Cascione falando de seu interior, quando lhe conhecemos, se muito, a imagem
exterior. Mas, de qualquer maneira, o texto é, como sempre, muito interessante,
especialmente, se não aborda as misérias da política. Um
agradável passeio pelas ruas da cidade, de mãos dadas com Madô Martins. Que delícia! O prazer da companhia de mestre Narciso de Andrade sem que, mesmo o ruído das rodas atritando os trilhos do bonde da "Linha Um", venha disturbar a audição do monólogo. Monólogo,
sim! Durante o passeio e durante a
viagem pelas imagens contidas nas nossas mentes jovens ou, até, infantis, nosso
egoísmo não permite que dividamos com ninguém mais, essas imagens perdidas no
tempo mas, resguardadas na perenidade de nosso amor por elas. Falho,
porém, em meus intentos. Não posso passear os olhos por sobre
a palavra Boa Vista e seguir, indiferente, adiante. Hei que explorar o
texto, mesmo que as imagens, certamente, venham tentar conspurcar aquelas,
contidas em minhas recordações de menino, andando por aquelas bandas. Aqueles
quintais imensos, circundando casarões, fechados durante a maior parte do ano.
As praias, pequenas e tranqüilas. Ou até, a agitação daquele trecho da Ilha,
chamado de Praia dos Milionários. Minha vista circunavega, rapidamente, por um
jovem corpo de mulher, mas se perde na imensidão de minhas divagações
imediatas. E o nome deste bairro, carrega-me de volta ao hoje e à mesma miséria
crescente que sustenta a violência, que nos apavora e faz de nossos antigos
sonhos, os atuais pesadelos que nos
assombram. É a mesma miséria que muitos de nós ajudamos a gerar ou, impassíveis,
assistimos a se alastrar; que nos
segrega, amedrontados, em nossas torres de marfim. A mesma miséria que se
propaga em nossos rastros etéreos, de ouro e fausto, temporários. Quantos
alertas não, Plínio? Hoje,
também, faz um ano que não podes mais expressar teus gritos interiores; não
podes mais fazer novas e inúteis denúncias reais. Mas, teus textos, continuarão
a ser louvados e imbecilmente, o conteúdo esquecido. Saudades, desta, jamais
ouvida, voz dos excluídos. Ah!
Que saudades de ti, também, antiga, doce e pacífica São Vicente. Carlos
Gama.
“www.suacara.com” 19/11/2000 A
foto da "Praia dos Milionários" foi feita pelo autor do texto, na
tarde do dia 10/4/2001, especificamente para a ilustração deste texto.
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