Guilherme de Almeida 


Guilherme de Andrade e Almeida 
nasceu no dia 24 de julho de 1890 na cidade de Campinas.
Faleceu na cidade de São Paulo, no dia 11 de julho de 1969.
Acadêmico em 1930 e em 1959 é eleito 
"O Príncipe dos Poetas Brasileiros".



Música Eterna 
Declamada

"Uma bigorna canta.
É o órgão que acompanha a missa do trabalho...
Chispa em brasa o metal...Tomba e retomba o malho...
Dos homens feitos de aço um clamor se levanta...
Da poeira do carvão da negra usina em chama,
o canto do progresso apaga a voz que clama, 
matando-a na garganta!"



Rua

A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
omnívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejecta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.

Rondó do Muito Triste
Declamada



Da triste vida que eu vivo
o menos triste é a tristeza.
Muito mais triste é a incerteza,
essa falta de motivo
para viver como eu vivo
só de surpresa em surpresa,
cada vez mais sendo presa
das coisas de que me privo
e sujeito, embora esquivo,
às ordens da natureza:
causadora, com certeza,
desse gosto negativo
da triste vida que eu vivo.



A Hóspede
Declamada


Não precisa bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.



Segunda Canção do Peregrino
Declamada

Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar:-"Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!"

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
-Tinha florido o meu bordão.



O Manto Cor do Tempo
Declamada


Eis que venho de longe e sou tão pobre!
Não acreditas que eu apenas tenha
o manto cor do tempo, que me cobre.

É um trapo. Mas nas dobras da estamenha,
que andou de sol a sol, de lua a lua,
É bem possível que comigo venha,

preso aos ásperos fiapos de lã crua,
um pouco de que é o mundo e do que é a vida:
-laivos de céu azul; poeira da rua;

restos de arco-íris; pétala caída;
penugem que escapou à fuga alada
e alta das estações; fímbria perdida

do véu de noiva de uma estrela aluada;
farrapos de neblina e de folhagem;
migalhas de sol-posto e de alvorada;

sobras levianas de libertinagem
do luar...-Venho de longe e sou tão pobre!

Mas trago a eternidade na miragem
do manto cor do tempo, que me cobre.


A Lição
Declamada


Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,

conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.

Nos remendos terás um mapa-múndi:
a carta que nos funde,
que do homem faz o irmão;

o cobre há de dizer, mais que a palavra,
que o bem não se azinhavra
se vai de mão em mão;

a côdea mostrará que a crosta dura
da terra é uma fartura
para os que têm e dão.

Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,

conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.


 

 

Guilherme de Almeida teve publicados vinte e dois livros de poesia, seis livros de prosa e dois conjuntos de obras e antologia, um deles com seis volumes. Traduziu quatro livros, três dos quais, do francês e um deles do grego.
Segundo seus biógrafos, ele não se preocupou em publicar um livro de crônicas, que são milhares, em quarenta anos de atividade jornalística.
Mas vamos a, apenas, uma delas:


Creio


Para que ninguém me julgue, como eu me julgo, um cético...
do grego "skeptikós", que significava aquele que costuma examinar e refletir, e que, paradoxalmente, passou a significar aquele que de tudo duvida...resolvi revelar o meu "Credo"íntimo, que é o seguinte:

Creio em mim mesmo, só pelo gosto de contrariar um pouco os meus credores;

creio no meu sense of humour, sem o qual eu jamais seria capaz de me ver de cuecas ao espelho e, principalmente, de votar em eleições;

creio nos meus inimigos íntimos, fatores máximos de minha popularidade; e nos meus amigos figadais, fatores mínimos das minhas indiscrições;

creio na imortalidade (apesar da tenaz negativa sustentada pelas Academias) da alma;

creio no meu coração de ouro, o qual, entretanto, nunca conseguiu uma avaliação decente no guichê do Monte Socorro;

creio no meu bom e fiel uísque escocês, que justifica, até certo ponto, a existência do meu fígado, do meu médico e do meu fornecedor;

creio no Bem e no Mal, na Verdade e na Mentira, no Belo e no Feio, no Triste e no Alegre, enfim, em todos os antônimos, porque acredito no meu alfaiate e no direito e avesso das lãs que ele corta e cose;

creio nos meus sonhos, que já têm feito muita gente boa acertar no "bicho" e nem sequer me dizer "Muito Obrigado!";

creio na minha perfeita insensatez, que os homens sensatos tentam em vão arremedar;

creio no meu indiscutível bom-gosto: única virtude que reconhecem em mim algumas mulheres que admiro;

e creio, afinal, inabalavelmente creio neste meu incrível cinismo de acreditar ainda em alguma coisa neste mundo destes tempos entre estes homens. 

29-11-1960.

 

Canção do Expedicionário

 

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