Falando em Democracia
(Com nossos cumprimentos ao Governador do Estado de São Paulo)

 

O que é democracia - em tese - todo mundo sabe. Até o Pedrinho ali no semáforo da esquina, conhece o significado (de cor), tanto que ouve o blaterar dos oportunistas da política, que invadem o barraco em que mora, pelos fios da energia elétrica, onde se conecta a velha televisão. 

Depois de amor, democracia é a mais bela palavra do nosso vocabulário: “governo do povo”, e aí se subentende que seja, também, para o povo, em favor do povo ou, em nome dele exercido.

Na palavra democracia, e no resultado prático de sua aplicação, não existe nenhuma distorção; se enganos há, é em relação à palavra povo.

Na palavra povo (do latim populu) a sinonímia é mais ampla, porém as mais comuns são: (o conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidade de interesses, uma história e tradições comuns) – (o conjunto das pessoas que constituem o corpo de uma nação, que se submetem às mesmas leis). No último trecho sublinhado, entretanto, reside todo o fundamento das distorções existentes na relação teórica entre povo e democracia.

O significado da palavra povo, no sentido mais amplo e teórico aí está, acima. O sentido prático e mais estrito é aquele que subdivide a classificação em dois pólos:

O primeiro deles é aquele composto pela minoria, aqueles 2% que, em tese não tem representatividade parlamentar mas que, em realidade, governam porque detém 80% da renda e das grandes extensões territoriais.

O segundo pólo é composto pela maioria, o povo, aqueles 98% da população que têm deveres políticos e social-econômicos a cumprir e, deveriam ter (como maioria que são!) a representatividade parlamentar proporcional, não fossem os detentores de apenas 20% da renda e da extensão territorial.

Toda essa digressão acaba sendo enfadonha, portanto partamos para o lado prático da questão, o que a torna menos extensa e mais simplesmente compreensível.

Vamos nos ater ao nosso quintal, já que não conhecemos o do vizinho!

Na cidade de Santos, o transporte coletivo (que já foi de competência da área pública mas, agora é da privada) sempre esteve entre os de melhor qualidade. Hoje não é dos piores mas é dos mais caros do país. Especialmente se levarmos em conta a superfície plana do município, e a pouca distância a ser percorrida.

Como todo o serviço essencial este, também, é explorado sob concessão, e só o faz quem tem interesse e garantia de lucros compensadores. E, como atividade sob  concessão, está sujeita às normas e à fiscalização emanadas da administração pública.

Pois bem, como se não bastassem os lucros garantidos pela exploração do rentável serviço, os empresários do setor “conseguiram” que fosse aprovada a extinção da função de cobrador (em outros lugares: trocador) e a colocação de catracas eletrônicas junto à porta de entrada e do motorista.

Resumindo: o motorista fica assoberbado com a dupla função (desgastado emocional e fisicamente, a ponto de colocar em risco a sua atividade principal que é a de dirigir com segurança, para os passageiros que conduz, para os transeuntes e outros veículos) e o usuário sujeita-se a ficar à porta de entrada, sob sol e chuva, à espera de adentrar o coletivo.

Não nos esqueçamos, também, do aumento de tempo de percurso (pois o tempo perdido nos pontos de parada é enorme) e do atravancamento provocado no trânsito, já caótico.

Um projeto de lei, recém elaborado, previa (pelas razões acima expostas) a volta da função de cobrador mas, ontem, o senhor governador do estado vetou o projeto, favorecendo aquela parcela que compõe os 2% da população.

Justificativas há, pois deve-se ter em conta que a atividade de transporte coletivo de passageiros não é das mais rentáveis, exigindo que o empresariado diversifique para que sobreviva economicamente.

Por exemplo: o grupo que explora os serviços na cidade de Santos detém, além desses serviços em diversas cidades e estados, uma das maiores empresas de transporte aéreo do país.

Falando-se em povo, lembremo-nos que a palavra popular daí, também, deriva. O esporte mais popular do país, é o futebol, e o senhor governador, depois de se garantir por mais quatro anos, conseguiu marcar mais um Gol de placa.

E, por falar em democracia, onde é que fica o “demo” dessa história?

 

Carlos Gama. www.suacara.com

10 de abril de 2003 – 13:51 hs

 

Som de fundo: "Última Estrofe"
Letra e Música de Cândido das Neves.

 

 

 

Lembre-se que eu aguardo a sua visita ao próximo Toque.

 

 

 

 

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