Amigos da onça

 

Da Reportagem do Jornal A Tribuna de Santos

De cada dez dependentes de drogas, cerca de nove iniciaram o vício pela maconha. A primeira droga, para mais da metade dos consumidores, quem a forneceu foi o amigo ou um conhecido. Na grande maioria das vezes, a rua é o local onde tudo começou, por curiosidade ou influência de colegas.

A constatação faz parte da análise da pesquisa realizada pelo Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc). Ela foi feita pela Divisão de Prevenção e Educação (Dipe) a partir da entrevista com cerca de 2 mil pessoas consumidoras de drogas, em depoimentos coletados nas delegacias do Estado de São Paulo.

Pela avaliação dos depoimentos, o Denarc apurou o perfil do consumidor de drogas: branco, solteiro e que tem entre 18 e 25 anos. Nasceu no interior, mora com os pais e cursa o ensino fundamental. As respostas, de acordo com o órgão da Polícia Civil, foram obtidas espontaneamente.

O objetivo do projeto, de autoria do delegado Marco Antonio Ribeiro, ex-diretor do Denarc, foi obter o maior número de dados sobre o perfil do usuário de drogas. As informações também são úteis para pais, professores, educadores, líderes religiosos e comunitários conhecerem melhor o problema das drogas.

O resultado da pesquisa confirma estudos feitos por entidades que lidam diretamente com dependentes químicos. Mostra que o uso inicial de entorpecentes pode acontecer em ambientes sociais habitualmente frequentados pelo candidato ao vício.

A rua e a festa com amigos são os lugares que 77% dos entrevistados tiveram o contato inicial com a droga. A escola vem em seguida, com 9% dos casos. Enquanto o bar, o jogo de futebol, a casa e o trabalho — juntos — representam 7% do local do primeiro consumo. Outros lugarem correspondem a 7%.

O estudo revela também que o perigo das drogas está muito mais perto do que se imagina. Muitas vezes, no ciclo de amizades da família. Pessoas que estão acima de qualquer suspeita, gozando de confiança dos familiares.

Pouco mais da metade — 56% dos entrevistados — afirmam que o vício começou com a colaboração de amigos e parentes. Somente 20% admitem que a primeira droga foi fornecida por desconhecidos. Quem buscou o entorpecente por conta própria representa o percentual de 16%. Aliás, a primeira quase sempre é de graça. Os que afirmam que não pagaram nada para experimentar a droga somam 84% dos dependentes. Os 16% restantes dizem que o primeiro consumo foi pago.

 

A líder

A maconha é disparado o entorpecente preferido dos iniciantes do mundo das drogas. Nada menos que 87% dos entrevistados confessaram que se tornaram dependentes usando a maconha. Em segundo lugar, ficou a cocaína com 6%. O crack foi a droga inicial para 3% dos entrevistados. Pouco abaixo, aparece a cola com 2%. Outros tipos de droga, na soma, chegam a 2%.

Além de ser a primeira a viciar, a maconha é a que apresenta o maior número de adeptos. Entre os que se mantêm no vício, 71% afirmam que continuam fiéis à maconha. A cocaína, até pelo seu custo mais elevado, atinge um percentual menor: 11% dos consumidores.

Considerados drogas lícitas, o cigarro e o álcool são os responsáveis pelo vício de 7% dos dependentes. O índice fica um pouco abaixo do crack. Esse é o entorpecente preferido por 9% dos viciados.

 

O perfil

A droga não escolhe nível social ou grau de escolaridade, atingindo indiscriminadamente todas as camadas. Entretanto, 70% dos que se declararam viciados estão cursando o ensino fundamental (1ªa 8ªsérie). Entre os que estão no ensino médio (2º grau), o percentual é de 25%.

Os que possuem nível de escolaridade superior são 4%. No extremo oposto, 1% dos entrevistados não sabe ler e escrever, sendo considerados analfabetos.

No perfil do consumidor de drogas destaca-se a predominância de pessoas da cor branca, com 68% dos dependentes. O percentual é mais de que o dobro de pardos (22%) e negros (10%).

Quem está no vício, em sua grande maioria, é solteiro (77%). Apenas 12% afirmam que vivem em regime de concubinato, enquanto 8% declaram-se casados e 2% separados ou divorciados.

Como consequência natural do vício, 42% perderam o emprego. Entre os que se mantêm empregados, o índice fica em 57%. Os aposentados dependentes somam apenas 1% dos 26 mil entrevistados.

 

Fumo e álcool antecederam o entorpecente

 

O caso de RRR se enquadra no perfil do consumidor de drogas delineado na pesquisa do Denarc. Ele é branco, tem 22 anos e cursou até a 7ªsérie do ensino fundamental.

O primeiro contato com a droga foi na rua, quando tinha 14 anos, contando com a ajuda de um grupo de amigos. A diferença é que, antes de se viciar na maconha, experimentou benzina.

‘‘Mas o que gostava mesmo era do álcool. Nos finais de semana, bebia com os amigos. Nos outros dias, comprava uma caixa de cerveja e me trancava no quarto para consumir tudo sozinho’’.

Filho de pais separados, RRR foi enviado pela mãe (que residia em Santa Catarina), para o pai, em Praia Grande. A tentativa de afastá-lo da droga pela distância deu errado.

‘‘Por aqui, tudo é mais fácil. A droga está livre nos bares, nas festas, nos clubes. Enfim, em qualquer lugar a gente encontra’’.

O vício o levou à cadeia em três oportunidades. ‘‘Procurava briga na saída dos bailes, para poder roubar o que eu pudesse tirar das pessoas’’.

Como a maioria dos entrevistados do Denarc, pensava que poderia largar o vício sozinho. A recaída, entretanto, quase sempre acontecia.

Foi no Centro de Apoio e Recuperação de Dependentes de Drogas (Cactos), onde está internado desde janeiro, que encontrou o apoio necessário para vencer a luta contra as drogas. ‘‘O tratamento não termina aqui. É para o resto da minha vida’’. Ele se entusiasma e faz planos de retomar os estudos. ‘‘Quem sabe em publicidade. Sou artista plástico.

Facilidades

Com MSP, tudo começou em família. Um primo o apresentou para a maconha quando tinha apenas 15 anos. No começo, a maconha foi apenas para ‘‘tirar um barato’’. Pura curtição, ainda mais quando ela é oferecida graciosamente.

Antes da maconha, porém, teve contato com o cigarro e o álcool. Sem perceber, a droga fazia parte de sua vida. Os pais desconfiavam dos ‘‘olhos vermelhos’’ do filho. Pressionado, negava ser viciado.

O estudo abandonou no 2º ano do segundo grau. ‘‘Chegava cansado e não conseguia prestar atenção nas aulas. Dormia na classe’’.

Apesar de trabalhar, passou a roubar quando o dinheiro do salário não era mais suficiente para sustentar o vício. Também traficou, vendendo cocaína em Vicente de Carvalho, onde mora até hoje.

Experimentou maconha, crack e cocaína. Quando foi preso drogado, depois de tentar roubar a bolsa de uma mulher, percebeu o quanto estava no fundo do poço.

A irmã e a namorada estenderam a mão no momento mais difícil, levando-o ao Cactos. Estava quando com 22 anos, sendo 8 anos dedicados exclusivamente às drogas.

O tratamento é difícil, mas MSP resiste. Faz cinco meses que não tem contato com qualquer tipo de entorpecente. Daqui a três meses, se tudo correr bem, poderá voltar para casa.

‘‘Quero começar uma nova vida. Trabalhar, estudar e constituir uma família. Só vou saber se parei ou não quando estiver na rua’’.

 

Fatores biológicos e sociais influenciam

 

A psicóloga Renata Mariano Marques, do Centro de Apoio e Recuperação de Dependentes de Drogas (Cactos), admite que o perfil do consumidor de drogas verificado na pesquisa do Denarc não é muito diferente das pessoas que procuram a entidade para tratamento.

Com dois anos de experiência no Cactos, Renata diz que o vício pode estar associado a fatores biológicos, emocionais e sociais. No primeiro caso, a dependência é comum em filhos de pais alcoólatras. Pelo lado emocional, pode estar relacionada a problemas de depressão e ansiedade. E, por último, o ambiente em que a pessoa vive também pode influenciar na sujeição ao vício.

Segundo a psicóloga, as drogas lícitas como o cigarro e o álcool também são motivos de preocupação. ‘‘Muitas vezes, tentam minimizar o problema dessas drogas, mas elas causam a dependência. Há pessoas que se livram das drogas ilícitas, como a maconha e a cocaína, mas não largam o cigarro, por exemplo’’.

Em média, de 20 a 30% dos dependentes que buscam o tratamento no Cactos conseguem manter a abstinência. O índice é considerado satisfatório pela psicóloga.

Existem vários tipos de tratamento, a internação é o modelo adotado no Cactos. O trabalho envolve duas fases distintas: triagem e fazenda.

Na primeira, os dependentes fazem a desintoxicação, com médicos e especialistas. O trabalho envolve ainda a conscientização e a orientação familiar.

O segundo estágio acontece na fazenda mantida pela entidade. No local, os internos participam de várias atividades: laboraterapia, oficinas terapêuticas, horticultura e grupos de motivaçao. Esta fase também inclui psicoterapia individual e em grupo, terapia, reuniões de espirtualidade e prevenção de recaída.

‘‘Em todas as fases, o apoio da família é fundamental para a recuperação do dependente’’, explica a psicóloga.

O Cactos fica na Rua República Portuguesa, 25, na Vila Nova. O telefone é o 3234-8548 e o e-mail: cactos@lbm.com.br.

 

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