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Provavelmente
alguns de vocês já conhecem o Skorrega, aquele botequim que
fica em frente ao nosso sindicato e de onde muitos só saiam
carregados. Daí a designação original de "Escorrega pra
Dentro". O tempo fez com que o nome fosse ganhando esse ar
mais nobre ou menos brega de "Skorrega" e que acabou
dando nome ao clube que hoje é o nosso clube. Nosso, não! Hoje
eu nem sou mais sócio do dito clube, que tem sede própria;
não freqüento o boteco e tampouco jogo "tranca", que
era uma das atividades de maior intensidade ali, depois das
bebidas.
Bem, a história aconteceu num anoitecer chuvoso e relampejante,
em que o "Boi de Lona", ao ver o "Canalha"
se despedindo, foi logo solicitando uma carona naquele Chevette
branco tão nosso conhecido.
Mas, como a maioria de vocês não deve ter conhecido nenhum dos
dois (e se quiser conhecer vai ter que esperar a vez ou, então,
ir a uma sessão espírita) se tiverem paciência, eu descrevo
um pouquinho do físico e da personalidade de cada um deles.
Mas, se não tiverem a necessária paciência, eu vou descrever
assim mesmo, porque não sei quem vai ou não ter a necessária
paciência.
A origem do apelido do "Canalha" eu nem sei, mas, com
toda a certeza não é por nada de excepcional. Era muito comum
no nosso tempo, usar de certos termos, em tom de troça, sem que
fosse necessária uma razão muito forte para isso. Apesar de
que, era ele quem se auto-intitulava "O Rei dos
Canalhas".
Eu o conheci, lá por volta de 69 (ano, claro!) já com as
têmporas branqueando e aquele ar de galã de telenovela. Tenho
até a impressão de que ela já nasceu assim. Um vozeirão
tonitruante compunha aquela máscara de rudeza. Apenas uma
defesa, nada mais.
Um excelente cervejeiro!
Esclarecendo este último parágrafo: não era fabricante de
cerveja mas, um excelente consumidor. E por falar em
excelência, era exímio colocador de apelidos. Daquele tipo que
saca um apelido, assim, no repente e o dito cai como uma luva,
sem merecer qualquer retoque.
Ele entrava num boteco - por exemplo - olhava para o
"copa" e dizia: Hei, Toninho Cerezo, solta aí uma
"Martha Rocha" bem gelada. Quem quer que olhasse para
o sujeito por trás do balcão tinha e certeza de que era irmão
gêmeo do jogador ou, no mínimo, parente próximo.
O "Boi de Lona", eu nem me recordo de seus outros
apelidos - tinha muitos - mas o nome era Fernando, um tipo
"sui generis", tanto no físico como em certas
atitudes havidas depois do vigésimo trago.
Tinha o tronco curto e as pernas longas, uma bunda descomunal,
daquele tipo que parece mais uma mochila, pois principia no meio
das costas. E, naturalmente, aquele andar pesado e gingante,
próprio da dificuldade provocada pelo agigantado atributo
retrotransportado. Depois de umas e muitas outras ele era
terrível, fazia cada uma... Como diria o "Fofinho"
(outro daqueles habitantes do lado de lá): O "Boi"
quando fica com esse olhar de Dr. Fritz (os olhos quase
fechados, como ficava um dos médiuns que recebia esse
espírito) é foda!
Mas, voltemos à porta do Skorrega que a chuva cai intensa e
eles estão esperando a deixa para poderem continuar a
história, a ser narrada depois, por mim.
O Canalha dá uma corridinha, rápida, e entra em seu Chevette e
o Fernando, um pouco mais vagarosamente, também chega. Partem!
O papo que rola durante o trajeto, seu eu o transcrevesse seria
pura invenção. Portanto, prefiro deixar que cada qual imagine
o que deve ter rolado de conversa entre os dois, já bem
"calibrados".
Pouco antes de chegar à casa do Fernando, o Canalha dá uma
paradinha para a "saideira", logo depois da ponte da
Lobo Viana.
Estaciona o carro, sai correndo sob a chuva intensa e entra na
padaria Rainha, ali na esquina da Frei Francisco Sampaio. Chega
num pique só, mão direita levantada e com aquele seu vozeirão
vai dizendo:
-Dois Conhaque!
-Dois pra mim também! - emenda o Fernando, que vem chegando,
gingando e esbaforido.
-Porra, Fernando, eu já pedi!
-Ah! Eu pensei que era só pra ti - diz ele, naquele tom amuado.
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