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De
Latão Pra Pau Arcado
O pessoal era novo por aquelas bandas da pequena cidade do
interior, família recém chegada da capital. O pai, a mãe e uma filha, que já andava no final do curso
ginasial.
Alugaram uma casa e assentaram suas tralhas, na zona urbana mas, a meio caminho da roça.
Talvez uns dois quilômetros do centro mais movimentado, e outros quinhentos
metros distante da estrada
principal.
A pouco mais que esses dois quilômetros ficava, também, a escola.
A mesma escola onde estudavam os meus três filhos mais velhos. Morávamos a dez quilômetros da cidade, na zona rural, oito dos quais, feitos por estrada plana, de terra batida e os outros dois, serra acima (a Serrinha), serpenteando por um caminho estreito e pedregoso. Quando chovia, não eram raras as vezes em que se fazia o final do percurso, de marcha à ré, no fusquinha. O “latão”
- transporte coletivo que transitava de quatro em quatro horas, cobrindo o percurso entre a cidade e o Pau
Arcado - em dias de chuva, nem
pensar.
Daí, já que não se podia contar com ele, nos primeiros anos em que os meus filhos começaram a ir estudar na cidade, iam para a escola no nosso carrinho e acabavam levando um bando de colegas e amiguinhos; todos os que coubessem naquele jacá.
Depois que a família de paulistanos chegou por lá, minha filha mais velha arrumou uma amiguinha da
cidade - Ana Carla - e foi estudar em casa dela, algumas vezes. Quando combinavam de irem lá em casa, no meio do mato, a mãe sempre avisava: cuidado minha filha que, por lá, pode ter onça!
Afinal, chegou um dia em que a mãe não mais podia impedir, e a filha quis estudar lá na casa da nova amiga. Acertaram tudo para o dia seguinte, com a meticulosidade de quem iria empreender uma viagem de exploração, a terras nunca
vistas.
Os pais, como era comum naquele tempo - preocupados com a herdeira - foram fazer um reconhecimento da casa e da família que receberia a filha naquela
tarde.
Pelo jeito gostaram (espero que tenha sido isso!), pois ficaram a tarde toda e quando se foram, a filha já os acompanhava, de
volta.
Das outras vezes eles a deixavam e só voltavam ao tempo combinado, para buscá-la.
Com o crescimento do convívio e da confiança, a filha passou a ir às tardes, depois das aulas,
sozinha.
Da primeira feita, a mãe, sempre cuidadosa, faz o seguinte alerta:
-Minha filha, se o motorista do “latão” correr muito, você pule fora,
viu?
Nunca aconteceu nada de mais, não foi vista nenhuma onça e nem a filha precisou saltar do ônibus, para se livrar dos riscos da velocidade e da imperícia do
motorista.
Hoje, passados quase vinte anos, ela leciona na cidade, usando um colete
à prova de balas e, na cintura, um trinta e oito.
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A
tela de fundo é uma imagem parcial da obra "Rancho Grande" de
autoria de Benedito Calixto de Jesus. Pintor nascido em Itanhaém, no
litoral sul do Estado de São Paulo, no ano de 1853.
Além da pintura, o artista destacou-se, também, na literatura.
A
música é "Luar do Sertão" de autoria de Catullo da Paixão
Cearense, violeiro e poeta, nascido em São Luiz, no Estado do
Maranhão, em 1863. Esta melodia teve a co-autoria do músico
João Pernambuco. |