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Da Paixão, às
Pipocas.
Foi no final da adolescência
que ele se apaixonou perdidamente pela jovem companheira de colégio. E,
creio eu – ocorre-me agora a possibilidade – foi essa a razão de
ele nunca se ter casado e levar a vida, de mulher em mulher, sem jamais
se deter por muito tempo.
Ele nunca falou sobre isso, assim
como, em hipótese alguma, menciona as razões que levaram ao fim
daquele romance juvenil. Bem, na verdade, nós sequer sabemos se houve
um romance correspondido ou se foi uma paixão unilateral e solitária.
Sabemos, sim, que ele sempre foi apaixonado por ela.
Hoje, ela é avó mas, há uns
vinte e cinco anos passados, era uma jovem senhora, recém casada.
Foi nessa época, que ele a
reencontrou. Ou melhor, que ele a viu entrando em casa, um pequeno
sobrado, geminado, na estreita e tranqüila rua de bairro.
Por mais respeito que tivesse, pela
sua condição de mulher casada, ele não resistiu e procurou fazer
contato.
E foi aí que descobriram, haver
reciprocidade na paixão da adolescência. Mas, agora era tarde.
Ele insiste e ela acaba lhe
contando que deixara de vê-lo, por insistência dos pais, que o achavam
irresponsável e sem futuro. Tudo por culpa desse jeito que ele mantém
até hoje, de brincalhão e gozador.
Mas, em respeito ao compromisso que
assumira, ela não permite que o contato se alongue e pede a ele que não
se aproxime mais.
Mas, como ele insistia em aparecer
pelas redondezas, ela começou a ficar trancafiada em casa e ele, cada
vez mais desesperado, querendo vê-la a qualquer custo. Sem grandes
riscos, claro! Ele não é besta e nem dado a brigas; é do tipo pacífico.
Vai passando por ali, de vez em
quando, de automóvel e “assuntando” as redondezas, até que
descobre um carrinho de pipocas. Estaciona o carro e se aproxima,
pedindo um saquinho delas. Simpático, como sempre, sorri e pede licença
para se sentar no banquinho do pipoqueiro.
Sentado, pernas cruzadas, balançando
o pé, ele vai comendo, vagarosamente e “arrancando”, como quem não
quer nada, algumas informações do sujeito.
Tanto pergunta, que o homem acaba
crendo que ele tem interesse na compra do carrinho e se antecipa,
mostrando o desinteresse na venda.
-Que nada, meu chapa! Eu não quero
comprar o seu carrinho, não; só estou querendo alugar, por uns tempos.
Faço um contrato contigo e pago o período, adiantado e em grana viva.
Topas?
Cofiando a barba rala, o pipoqueiro
promete pensar no assunto.
-Mas, tem uma coisa! Tu vais ter
que me dar umas aulas. Eu venho aqui, depois do almoço, durante alguns
dias e vou aprendendo contigo.
Tal demonstração de interesse e
seriedade faz com que o dono do carrinho pense, com carinho, no assunto.
Além do mais, seria lucro líquido e sem trabalho algum. Pois ele iria
lhe pagar, por dia, o valor da féria média a que estava acostumado.
Acabou topando a parada e combinaram a primeira aula para o dia
seguinte.
Foi assim, que depois de uns três
dias, o Magrão assumiu o carrinho de pipocas, com avental branco,
casquete e tudo o mais.
Mas, não conseguiu vê-la, em
nenhum dos primeiros dias por ali. Percebeu que seria necessário se
aproximar um pouco mais da casa dela. Como o ponto do pipoqueiro era
oficial e fixo, ele acabou cumprindo o contrato de pagamento, mas
devolvendo-lhe o carrinho.
Foi forçado a comprar um outro veículo,
licenciar, conseguir uma concessão junto à prefeitura e, com isso,
acabou tendo o seu próprio carrinho, junto à outra esquina.
Mesmo sendo uma esquina de menor
movimento, ele foi formando uma freguesia própria, composta, em sua
maioria, pelas crianças das escolas próximas, encantadas com seu jeito
alegre, moleque e brincalhão.
Quando ela percebeu a manobra
acabou conseguindo, sob qualquer pretexto, convencer o marido a se
mudarem dali.
Não conseguiu nada com ela mas,
sabem que, no fim, ele até vendou o ponto e o carrinho, ganhando uns
bons trocados com isso?
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