Zona de Abandono


O que deveria ser missão de cada um, acaba se transformando em omissão sistemática de todos.
Para quem ainda tem os sentidos desembotados e o raciocínio lógico desperto, a visão da imundície que se espraia, a audição do cochinar que reboa lá de cima ou o odor que recende de cada desvão onde eles refocilam, dá a nítida sensação do abandono em que nos encontramos, em que se encontra a nação. Este estado de coisas sugere comparações, desperta velhas lembranças adolescentes, das sarjetas da antiga zona de meretrício já em decadência, que margeava o velho cais santista; uma região que, apesar do estado, nem de longe se assemelhava à atual área abandonada, semidestruída, que assusta e repugna a qualquer um que não esteja na indigência, subjugado pelas substâncias alucinógenas de menor custo. É esse quadro atual, possivelmente, o que se delineia para um futuro não muito longínquo, onde submergiremos, junto com o nosso país.
Estas observações claras não têm como objetivo criticar ninguém, nem nada, porque eu mesmo não sei o que poderia fazer de efetivo para ajudar a mudar o quadro caótico, que é resultado de séculos de desmandos, de abandono moral, de descultura e de indiferença. Estas poucas linhas são apenas observações da realidade que nos cerca e que nos conduzirá fatalmente ao fundo do abismo. Talvez seja somente um desabafo inútil e tolo, que se perderá em meio à sujeira a que nos estamos acostumando, sem perceber, sem reclamar e que faz de cada um nós uma vítima silenciosa de si mesmo.


Santos, 29 de junho de 2009.

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