Uma Rua, Uma Casa

 

Uma rua que já foi areão, depois coberta de paralelepípedos e bem depois de asfalto. Uma rua cujo trânsito já teve mão dupla e, depois com mão simples, já mudou de direção várias vezes. Uma rua onde a gente brincou, jogou, namorou e viveu. Uma rua onde as moradas eram chalés de madeira, casas de alvenaria, dois ou três pequenos prédios de dois andares e um único e solitário edifício, que se destacava na paisagem toda, com seus cinco pavimentos no limite da lei. Uma rua que já teve algumas velhas vendas, quitandas, duas sedes de clubes de bairro, dois centros espíritas e, agora vai vendo crescerem os monstros de concreto, que deterioram a paisagem, alteram a qualidade de vida, trazendo um mundaréu de gente estranha que, com seus carros atravanca o velho leito carroçável.
Ainda assim ela é uma rua especial. Especial, não somente porque ali crescemos ou porque ali esteja a maior parte de nossas lembranças, mas porque nesta rua tem uma casa especial. Uma casa das mais antigas, uma das mais maltratadas pelo tempo, onde existe uma roseira branca junto ao velho muro, um portão capenga, que nunca se fecha pra ninguém. Uma porta de vidro (com um deles quebrado) que, também nunca se fecha para ninguém e que dá acesso ao terraço, ainda cheio de suas velhas e jovens lembranças, telas, tintas, quadros e um imenso vazio, deixado pela luz que a iluminava e que retornou ao céu.

04/4/2009 16:43:55

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