Rememorando


É muito interessante perceber como é importante e inapagável a maioria das lembranças que nos vêm através de sons, odores e imagens aparentemente simples, que ficaram gravadas em nossa memória inconsciente. Percebe-se isto, não quando se pensa nelas, mas quando elas afloram espontaneamente, com o "toque" dado por um elemento semelhante e que propicia o redespertar destas velhas memórias.
Ontem, um domingo ensolarado, eu passeava à beira do mar com minha neta Maria Isabela, de um ano e seis meses (um catatau de gente, de caminhar rápido, mas ainda trôpego).
Em determinado instante, ela se põe a falar insistentemente:
- Nenê...O nenê - apontando à sua frente.
Aí, eu entendi o que ela dizia. Era a sua sombra, projetada no espelho d´água e que ela entendeu ser ela mesma. Aí ela se abaixou, tentando tocar a sombra que se estreitava cada vez mais. Deitou-se de bruços e ficou passeando os dedinhos pelo contorno da sombra da cabeça ou apoiava o rosto sobre o braço dobrado.
O resultado foi imediato e lá estava eu em qualquer praia da minha infância, fazendo o mesmo, como era meu hábito e meu prazer. Eu deitava na beira do mar, apoiava o rosto sobre o braço, fechava os olhos e deixava que o marulhar das ondas embalasse o meu sossego ou os meus sonhos.

Santos, 08 de dezembro de 2008.

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