Rua,extensão do quintal de casa

 

O tempo passou e a maioria das imagens que tínhamos das cidades foi mudando com ele. As casas foram ruindo e em seu lugar erguidos edifícios que descaracterizaram as regiões e os bairros; as ruas são as mesmas, mas perderam seu aspecto original, tão amigo; as árvores também foram sumindo, para dar espaço ao concreto vazio e insensível; as crianças amadureceram mais cedo, forçadas, perdendo o sabor da inocência. Restaram as reminiscências guardadas no velho baú da memória, cuja tampa se abre pelo exercício do abstrato, ou raras vezes, pela imagem de figuras estáticas, que a modernidade ou a ganância do homem, ainda, não destruiu. Sim, elas existem, acredite. É possível ver, em algum quintal incrustado no anel de brita, areia e cimento, um velho pé de uvaia, que alguma Dona Aparecida cuidou de manter, para gáudio dos netos e de alguns vizinhos mais antigos; por quanto tempo resistirá, não se sabe.

Com todas estas mudanças, ainda hoje, as ruas continuam sendo extensões dos quintais das casas, entretanto e infelizmente elas são o caminho quase certo do crime e da marginalização. Mudaram as ruas ou mudaram os donos dos quintais?

Apesar das ruas serem as mesmas, mudaram os conceitos, mudou o homem, mudou o senso de responsabilidade paternal e maternal, mudaram as leis (para pior), cresceu a leniência cômoda, como cresceu a demagogia irresponsável e, hoje, as ruas, como todo o país, são terra de ninguém.

06/01/2009

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