|
Pobre
Besta
Talvez
soasse melhor "Pobre e Besta", mas o título já
foi escrito e é adequado respeitar o primeiro impulso.
O indivíduo era daquele tipo cheio de recalques e de complexos,
tudo por conta da situação de penúria em que
sempre viveu e, especialmente por ser aparentado com uns tipos ricos,
fazendeiros e industriais, que freqüentavam as altas rodas e
os "melhores" círculos sociais.
Certo dia, não se conformando com este isolamento e com a diferença
de classes, decidiu ir a uma das festas promovidas por um parente
distante, de terceiro ou quarto grau. "Rapou" as economias
da família - que deveriam servir para o sustento - e embarafustou
pela cidade, à cata de uma locadora de roupas de luxo. Como
não encontrou nada que lhe servisse, acabou investindo quase
tudo na compra de um smoking e seus complementos, sobrando-lhe apenas
o suficiente para alugar, num velho brechó, um sapato surrado
para complementar o traje.
Foi assim que ele conseguiu se esgueirar entre os convivas, para logo
depois ter percebido o seu deslocamento, quando já sentado
cruzou as pernas, pondo à mostra a sola furada do velho sapato,
que nem era seu; tentou engrenar uma conversa, sobre assunto que não
dominava e expôs a todos os velhos dentes mal cuidados e cariados.
Posto de lado, ignorado, só lhe restou encarar a vergonha de
ter disposto dos valores do sustento da família e bater em
retirada, sob o sorriso sarcástico, mal disfarçado,
dos donos da festa.
A croniqueta é meio besta, concordo, mas ela bem ilustra a
situação da família brasileira, daquela que contribuiu
dezenas de anos para a previdência social, através de
empresas privadas, e hoje se encontra em situação, que
bem se coaduna com a palavra acima (que vem logo depois de empresas),
enquanto o governo faz o papel do irmão pródigo desta
pequena crônica, emprestando dinheiro (bilhões) ao FMI.
|