Ouvindo Cantar o Galo


O ditado é antigo, mas reflete bem o que ocorre com um projeto de lei que tenta impedir a comercialização de álcool líquido no Estado de São Paulo.
Num repeteco de medida determinada pela ANVISA e que foi contestado judicialmente, uma deputada da região apresentou proposta legal, baseada em algumas alegações esdrúxulas ou sem sentido. Em primeiro lugar, afirmou ter havido redução de 75% no índice de acidentes envolvendo o produto, durante o período de proibição anterior (que não durou mais que uns poucos meses) e bastou. Ora, é sabido de sobejo que as estatísticas geralmente não refletem a realidade, especialmente por conta da maioria ser feita sob encomenda. Por acaso voltaram a verificar o retrocesso no tal "índice", depois da medida cautelar? A outra descabida alegação (é aí que entra o cantar do galo sem saber aonde) é que o álcool gel não é suscetível de derramamento (em palavras textuais da legisladora: o gel impede o derramamento do produto). Quem já conviveu (e prestou atenção) com este material em forma de gel, sabe perfeitamente que o que ocorre de realmente diferente, é a mudança da gradação, fazendo com que o álcool perca a maior parte de sua capacidade de combustão.
 
Aclarando as coisas: se aprovada esta "coisa", quem quiser limpar um ferimento, destes comuns que ocorrem todos os dias, vai ter de ir à farmácia; quem precisar higienizar os azulejos dos banheiros ou cozinhas, vai ter de adquirir um destes produtos tóxicos fabricados para tal fim e quem quiser acender a churrasqueira, vai ter de ir ao posto de combustíveis e comprar um pouco de álcool automotivo. O duro vai ser impedir que, num momento de infelicidade e distração dos pais, uma criança lance mão de qualquer destes produtos substitutos e os ingira.
Haverá algum outro motivo, Deputada?
Ocorre-nos que é a mesma encenação grotesca, que fizeram com a proibição da venda de éter, benzina, acetona ou formol, como se alguém fosse refinar (não sei se é o termo adequado, porque não é a minha área) cocaína em pequenas quantidades, concorrendo deslealmente com os grandes fornecedores ou não fosse possível alisar cabelos (também não é minha área, acredite) sem o uso do formol. Água fervente é um dos maiores causadores de acidentes domésticos e ninguém (oxalá não apareça nenhum papagaio com tal idéia), ainda, impediu a comercialização de gás para acender os fogões caseiros.
Tomara que, dentro desta "Cage aux Folles" de onde vem de tudo, ainda haja gente de bom senso e não se aprove mais esta mancada.


17/4/2009 10:51:33

Aderimos ao F.A.R.O.