Imagens e Associações


Estávamos sentados, meu filho e eu, no terraço ontem à noite, em uma troca leve de impressões, que nos mantinha firmes na conversa, nas análises e nas observações de tudo ao nosso derredor. Em determinado momento, cansados, nos sentamos e eu logo observo um carrinho amarelo surgir em suas mãos; estendo as minhas e ele me passa o pequeno veículo de metal.
-É uma Ferrari?
-É - responde ele.
Enquanto passeava as pequenas rodas na palma de minha mão, eu senti que as rodas não eram livres e ele, tendo percebido o meu questionamento mudo, responde à não pergunta:
-Sim, é de fricção.
-No meu tempo, eles eram de dar corda, acionados por uma mola de aço, do tipo daquela de relógios despertadores antigos. Você girava a chaveta e a mola ia se enrolando, quando soltava, ela ia desenrolando e movimentava o carrinho, com a chaveta girando.
-Ah, eu ainda me lembro, pai.
-Quando eu era pequeno e morava com minha avó Cyomara, uma vez eu comprei uma motocicleta de dar corda, numa lojinha de brinquedos que ficava lá embaixo, na Pamplona. Custou cinqüenta cruzeiros, dum dinheiro que eu ia ganhando em dias de aniversário e juntando. Você dava corda, ela andava um pouco, parava, o motociclista soltava a mão direita da manopla e descia. Depois ele retornava e a moto saía andando novamente.
-Que fim deu?
-Uma vez, não sei que problema houve com ela, meu pai a desmontou para arrumar. Encheu uma lata de cera, que estava vazia, com as peças e cobriu com querosene. Os anos se passaram, eu saí de casa e nunca mais soube daquelas peças.
-Sabe, pai, eu acho que isso é genético. Você lembra da máquina de tricô da minha mãe, que você desmontou e nunca mais juntou as peças? Caímos numa risada tão intensa, que só paramos uns bons minutos depois.
Agora, enquanto escrevo, dou comigo relembrando outros desmontes que fiz pela vida afora, sem jamais juntar as peças, alguns por pura preguiça, mas a maioria por não valer a pena, mesmo.

Santos, 31 de maio de 2009.

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