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Empreendedorismo, Conjecturas e Venalidades
À
mesa do almoço, eu analisava e repensava o conteúdo
de um texto lido pouco antes, num jornal da minha região. O
texto, excelente por sinal, contava a história do fundador
de uma empresa que, dentre outras atividades, faz a coleta de lixo
em algumas das cidades da baixada santista, mas não era o seu
sucesso a razão do meu conjecturar. O que me punha a remoer
pensamentos, a fazer comparações e tentar chegar a algum
resultado palpável, era o fato de o lixo da Cidade de Santos
ser o mais caro do país. Deixei que o raciocínio vagasse
por histórias, velhos relatos, por informações
colhidas aqui e acolá para, no final, me lembrar que se a mesma
empresa que coleta o lixo de várias cidades - todas com similitude
de perfil topográfico e pouca distância entre si - cobra
por isso valores bem distintos, o fato estranho não deve estar
na origem mas, possivelmente no destino, que muitas vezes é
determinado pela profundidade de alguns bolsos. Chegando
a esta conclusão, agora me ocorrem histórias de pescaria,
que tem o mesmo destino. Não são histórias de
pescador, são relatos ouvidos de velhos parceiros, em algumas
pescarias. Num desses momentos, enquanto o barco balançava
lá fora, na barra, e as linhas pendiam frouxas de nossos dedos,
pela ausência de peixes, surgem algumas histórias, para
fazer passar o tempo e espantar a lombeira trazida pela inatividade,
para avivar a curiosidade ou atiçar a revolta. São velhas
histórias do Brasil, que azedam o humor daqueles que não
se amoldam às velhas práticas, mas despertam a cobiça
dos que têm espírito de raposa. O empresário da
construção civil recontava como se tornara velho conhecido
nos restaurantes mais requintados da capital paulista, ao acompanhar
e bancar o luxo e a luxúria de representantes de determinadas
secretarias, sempre que era necessário discutir alguma nova
obra nas escolas do estado. Isto, sem falar nos "extras"
e seus complementos. Somente
agora eu percebo a falta e me desculpo com Antônio Vieira e,
ainda que só escreva em prosa, me desculpo, até, com
Gregório de Matos, por recontar velhas histórias, de
velhos hábitos, neste sempre velho país do futuro. |