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Amor-próprio
Não há como pensar sobre este tema, sem que me venham
à cabeça algumas imagens de um velho e querido amigo,
que já partiu daqui, do mundo terreno. Mudou de plano e, agora,
somente o tempo para nos proporcionar o reencontro. Enquanto esse
tempo não chega, vamos recordando a convivência, a amizade,
as experiências e as sábias lições a mim
transmitidas. Esse caro amigo gostava de ler o que eu escrevia, comentava,
valorizava e, mais que eu, me reconhecia como escritor. Cada novo
texto, eu imprimia e levava para suas observações, geralmente
no seu local de trabalho: a rua. Sim, era na rua, que o meu velho
professor de desenho e amigo constante, exercia o seu mister, desenhando,
pintando e, na maioria do tempo, retratando rostos sob encomenda.
Depois que lia o novo texto, ele retirava do bolso traseiro da calça
ou da bermuda, um calhamaço de outros escritos meus e a eles
juntava o mais novo. Fazia questão de mostrar a outras pessoas
o que eu exprimia por escrito e insistia em frisar a amizade com o
tal escritor.
-Escreves para uns poucos, meu amigo - dizia Queirolo - e isto valoriza
ainda mais o que fazes. A maioria dos teus escritos deixa na gente
um sabor de "quero mais". No entanto, por melhor que tu
faças o que sabes e de que gostas, as pessoas não te
darão o devido valor e nunca te reconhecerão como escritor,
se tu mesmo não o fizeres. Quando te apresentares a alguém,
diga assim: Carlos Gama, escritor.
Estas palavras marcaram a minha vida e se fixaram permanentemente
na memória, entretanto, eu ainda não aprendi a me dar
o devido valor como pessoa e continuo, teimosamente, a esperar que
alguns, ainda que se digam "próximos", façam
por mim o que eu não faço.
Tolice!
Santos, 06 de maio de 2009.
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