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Boneca.
Dois dos
meus filhos já possuíam animais de montaria. Agora chegara a vez da
Cyomara.
Procura de cá, procura de lá, acabamos achando uma égua mansa , de
andadura macia, boa de sela e de charrete. Um animal que era um doce.
Mais outro habitante incomum naquela arca, que não é...ra.
Ficava no cio, provocava todos os cavalos e acabava criando até, situações
de perigo para os machos que estavam do outro lado da cerca. Porém,
jamais foi "coberta", que se saiba. Conseqüentemente, jamais
pariu.
Seria sapatão ?
Não me recordo ao certo mas, acho que foi o Waldir, que morava lá no
"Rio Acima", quem nos indicou a sua avó, D.Sebastiana, como
sendo a pessoa que possuía um bom animal de sela para vender.
As cidades mudaram tanto, cresceram de tal maneira, nestes últimos
vinte anos que tenho a impressão de que determinados locais e hábitos
estão irremediavelmente perdidos no tempo. E somente quem não curtiu o
interior, nos bons tempos, não vai sentir saudades.
Dona Sebastiana morava num sítio, encravado no sopé de uma
barranceira. Bem no miolo de uma curva de estrada; tão fechada que se
chamava "curva da ferradura". Só se adivinhava que lá
embaixo havia moradia, pela fumaça permanente da chaminé daquele fogão,
sempre aceso, quentando o café do bule.
A chegada era um ladeirão pedregoso, cheio de curvas, na estradinha
estreita que nos levava àquele paraíso. Um terreirão bem amplo, cheio
da galinhada caipira, alguns cachorros, uma vaca e a égua Boneca.
Enquanto o marido de Dona Sebastiana era vivo, a Boneca puxava a carroça
que levava os latões de leite pra servir a freguesia cativa, lá em
Atibaia. Depois que o "Pai" chamou o retireiro pra Sua
companhia, as vacas, pouco a pouco foram sendo vendidas, os latões também
e, até, a carroça já se fora. Da antiga atividade, restaram apenas
uma leiteira e a égua, que nós compramos e mudou de cidade.
Durante algum tempo, íamos visitar Dona Sebastiana, todas as semanas e
ficávamos batendo papo, sentados nos degraus da escada da cozinha,
saboreando a pequenos goles, o café adoçado com garapa. A palha,
buscada no paiol e o fumo picado na palma da mão, viravam um "paiero",
que nós íamos baforando ao longo da conversa fácil e sem pressa. Uma
conversa suave e calma como a vida naqueles cafundós.
Umas poucas galinhas, um galo, dois cachorros e as duas filhas
solteiras, Dona Sebastiana levou pra cidade. Três mulheres, sozinhas,
naquele fundão de mundo, não dava mais pé.
Isoladas, sem condução, sem pretendentes para as moças; só restava
sair do paraíso e ir pro inferno.
Nunca mais as vi !
Carlos
Gama
Quadro
de Deanna Hancock*
Uso
autorizado.
Música:
No Rancho Fundo
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