English version

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Use a tecla F11 para ampliar a tela e, novamente, F11 para retornar ao tamanho original.

 

 

 

Boneca.

 

Dois dos meus filhos já possuíam animais de montaria. Agora chegara a vez da Cyomara.
Procura de cá, procura de lá, acabamos achando uma égua mansa , de andadura macia, boa de sela e de charrete. Um animal que era um doce. Mais outro habitante incomum naquela arca, que não é...ra.
Ficava no cio, provocava todos os cavalos e acabava criando até, situações de perigo para os machos que estavam do outro lado da cerca. Porém, jamais foi "coberta", que se saiba. Conseqüentemente, jamais pariu.
Seria sapatão ?
Não me recordo ao certo mas, acho que foi o Waldir, que morava lá no "Rio Acima", quem nos indicou a sua avó, D.Sebastiana, como sendo a pessoa que possuía um bom animal de sela para vender.
As cidades mudaram tanto, cresceram de tal maneira, nestes últimos vinte anos que tenho a impressão de que determinados locais e hábitos estão irremediavelmente perdidos no tempo. E somente quem não curtiu o interior, nos bons tempos, não vai sentir saudades.
Dona Sebastiana morava num sítio, encravado no sopé de uma barranceira. Bem no miolo de uma curva de estrada; tão fechada que se chamava "curva da ferradura". Só se adivinhava que lá embaixo havia moradia, pela fumaça permanente da chaminé daquele fogão, sempre aceso, quentando o café do bule.
A chegada era um ladeirão pedregoso, cheio de curvas, na estradinha estreita que nos levava àquele paraíso. Um terreirão bem amplo, cheio da galinhada caipira, alguns cachorros, uma vaca e a égua Boneca.
Enquanto o marido de Dona Sebastiana era vivo, a Boneca puxava a carroça que levava os latões de leite pra servir a freguesia cativa, lá em Atibaia. Depois que o "Pai" chamou o retireiro pra Sua companhia, as vacas, pouco a pouco foram sendo vendidas, os latões também e, até, a carroça já se fora. Da antiga atividade, restaram apenas uma leiteira e a égua, que nós compramos e mudou de cidade.
Durante algum tempo, íamos visitar Dona Sebastiana, todas as semanas e ficávamos batendo papo, sentados nos degraus da escada da cozinha, saboreando a pequenos goles, o café adoçado com garapa. A palha, buscada no paiol e o fumo picado na palma da mão, viravam um "paiero", que nós íamos baforando ao longo da conversa fácil e sem pressa. Uma conversa suave e calma como a vida naqueles cafundós.
Umas poucas galinhas, um galo, dois cachorros e as duas filhas solteiras, Dona Sebastiana levou pra cidade. Três mulheres, sozinhas, naquele fundão de mundo, não dava mais pé.
Isoladas, sem condução, sem pretendentes para as moças; só restava sair do paraíso e ir pro inferno.
Nunca mais as vi !

Carlos Gama

Quadro de Deanna Hancock*
Uso autorizado.

Música: No Rancho Fundo