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As Ovelhas de Monsenhor
Monsenhor
tinha atenções muito especiais com as suas criaturinhas, mantinha-as
em pasto próprio, tratadas com muito carinho e
cercadas
dos mais intensos cuidados.
O velho Agnelo fora quem sempre cuidara delas, tratando-as, tosando-as
quando necessário, cuidando de suas crias e das atenções todas depois
da parição.
Mas o tempo foi passando, o velho pastor envelhecendo e perdendo a condição
de andar pelas encostas das montanhas atrás de suas meninas - como ele
as chamava. O pouco que ainda podia fazer e que lhe permitiam a artrite
e o reumatismo, era cuidar dos currais e dos poucos e bem tratados
carneiros, que garantiam as crias e o leite, de onde vinham os queijos
que sustentavam fartamente a mesa e a bolsa do religioso.
Sua Eminência, na iminência de ficar sem quem cuidasse de seu tesouro,
determinou que se espalhasse entre os habitantes da região e das
circunvizinhanças, que andava em busca de um pastor que pudesse cuidar
de suas ovelhas.
Nesse entremeio veio passar alguns dias com o avô, o seu neto mais
novo, um grande peralta, a quem apelidavam de “O Magrão”. Alcunha
que se perpetuou no tempo, mas cuja origem remonta aqueles tempos de
menino magro e sardento.
Apesar do espírito endiabrado, o jovem era de boa índole, carinhoso e bastante dedicado ao
avô. Foi, portanto, sem nenhum titubeio que aceitou
o encargo temporário de substituir o ancião na tarefa mais árdua de
andar pelas encostas da região, dando cuidados e outros necessários
atendimentos às Meninas de Monsenhor.
Os dias foram passando, com o velhinho e o patrão cada vez mais
encantados com o trabalho do jovem pastor. Era ele tão eficiente,
mantinha o rebanho em tal ordem e limpeza, que o dono da herdade já
sugerira ao velho empregado que tentasse dissuadir a filha de levar o
menino de volta, permitindo que ele por lá ficasse, ao menos por
mais algum tempo. Além do pagamento justo pelo trabalho, Monsenhor
bancaria as despesas que o jovem gerasse para o velho empregado e
cuidaria de lhe arranjar vaga na escola da região.
Cartas foram e vieram, sem
que a mãe acedesse aos pedidos de seu velho pai, sob a argumentação de
que necessitava do filho a seu lado e, além do mais, não confiava em que
ele por lá se mantivesse, sem criar alguma nova confusão. As peraltices
eram fato tão corriqueiro, que ausência delas já a deixava
preocupada, porque quando demoravam um pouco mais a acontecer, poderia
se ter a certeza de que viriam com peso redobrado.
Fez pé firme e não cedeu um milímetro em sua decisão, mesmo tendo de
negar aos insistentes e pessoais pedidos de Monsenhor.
Enquanto não conseguiam um novo empregado que acompanhasse as meninas
no campo, o velho continuou cuidando da criação, que agora ficava
estabulada.
Os dias transcorriam tranqüilos, mas uma coisa encafifava o velho
tratador e principalmente o dono do tesouro: as ovelhas não aceitavam
mais as velhas mãos, nos poucos tetos que ainda tinham algum leite. Mas
o pior era perceber que nenhuma delas estava prenhe e sequer permitiam
que algum macho delas se aproximasse, mesmo em época de cio, quando se
punham a balir de forma triste e insistente.
Monsenhor ordenou, então, que se contratasse o melhor veterinário,
mandando buscá-lo em outra
região, para que procurasse descobrir o que havia, ou houvera com as
meninas de seu rebanho.
Nunca
se soube o que aconteceu mas, coincidentemente foi nessa época que
surgiu a expressão: "as buças do pastor".
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