Aplausos!
Nem tudo na vida é tristeza. Nem mesmo nos domingos, onde a volta da visita ao asilo, me deixa, sempre, o coração apertado, no peito.
Apesar de todas as tensões e tristezas de hoje, pela manhã, após uma oração em conjunto, meu espírito estava leve e, eu já saí de casa com ares de felicidade.
Ia levando a minha máquina fotográfica, na esperança, concretizada, de atender a um pedido de Ana Luísa: fotografar o meu amigo Raimundo, o “Velho Sertanejo”.
Antes da chegada, diviso, sob o abrigo da parada de ônibus, uma figura simpática, também minha conhecida, seu Epifânio. Paro, um átimo, para saber de seus joelhos e do resultado, gradativo, da cirurgia. Nos encontramos raras vezes, normalmente, a cada dois meses. Este velho baiano é amigo de seu Raimundo; conhecem-se, desde a época em que trabalhavam, ainda na picareta, nos Serviço de Água e Esgoto, lá pelos idos de quarenta e nove. Costumava vir, ao menos uma vez ao mês. Mas a distância de onde mora e o problema do joelho se agravando, foi espaçando mais as visitas.
-O senhor viu Epifânio? – pergunta o meu amigo, logo que chego.
-Vi, sim, seu Raimundo! Encontrei-o ainda no ponto de ônibus.
A expressão de meu amigo é de satisfação. Peço-lhe que me permita fotografá-lo; reluta, com o olhar perdido no longe.
-Sabe...Seu Raimundo, é que tenho uma amiga, (que, por sinal, manda-lhe um abraço, somado aos da Vânia, da Rosy e da Vilma. Agora, são quatro!) que gostaria de publicar um dos textos que escrevi a seu respeito e insiste em colocar ao lado, uma sua foto.
Ele acede, sorridente. Também, depois da visita do velho amigo, um montão de beijos a abraços, quem é que não se derrete?
Hoje eu saí de lá, muito feliz por tudo. Vi o meu amigo esquecer todas as tristezas e rir, às gargalhadas, por duas vezes seguidas, de um palhaço alegre, surgido, nem sei de onde.
Uma passada por casa, um recado e a confirmação à Ana, sobre o seu pedido atendido e vou saindo de novo. Preciso ir ao Shopping. Afinal de contas, é lá que estão expostos os meus textos. Tenho que “dar as caras”. Aproveito um café, o papo com o amigo Queirolo e, encomendo mais uma charge.
-Meu amigo está abatido, meio triste, o que houve?
-No
lo se! Una influenza, quizás.
-Vamos a um café, que isso passa!
Na volta, peço-lhe que faça a charge. E enquanto trabalha, vou escrevendo um pouquinho.
Terminado o trabalho (como sempre, magnífico!) eu o aplaudo, de pé. A maior paga de um verdadeiro artista é o reconhecimento de seu trabalho, pelo aplauso.
Fico feliz em ver meu amigo alegre, sorridente. Mas, logo se distrai. Surgiu, novamente, o mesmo palhaço que estava no asilo.
Eu o conheço, já, de algum lugar – penso.
Assim como fez rir a seu Raimundo, faz, também rir a ”bandeiras despregadas” o meu amigo Vittorio.
Ele se encanta, as lágrimas correm e, por fim, num gesto de quem sabe o valor deste ato: levanta-se, encara o palhaço e me aplaude.
Carlos Gama
www.suacara.com
21,50
h – 08/4/2001.