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P.Q.P.
A Pia e o Antônio Português (Esta
é crônica!) Comecemos do princípio: a pia. A pia estava cheia de louça por lavar e o detergente, haviam se esquecido de comprar. Desde os tempos em que morava sozinho, ainda menor de idade, aqui em Santos, eu procurava manter a casa em ordem, em especial a pia. O apartamento era mantido como um brinco e a única coisa que me incomodava era o ferro de passar (desse sujeitinho, não quero saber até hoje). Para amenizar o problema, naquela época, surgiu (ou foi quando o descobri) o tergal, para as calças e camisas. O material, um traste, mas muito útil naquelas circunstâncias. As camisas se autopassavam, estendidas nos cabides e as calças não perdiam o vinco. A gravata era sempre a mesma (jazia pendurada no cabide, no vestiário, com o laço pronto, e só ia ao banho umas raras vezes); com isso eu me mantinha dentro dos padrões do banco onde trabalhava. Voltemos à pia, pois ela estava cheia - hoje, pela manhã - e eu, para amenizar a visão incômoda, resolvi ir ao supermercado (um mercadinho, como o chamam), aqui perto. Sabendo que o preço não chega a um real, levei o meu potinho (um daqueles de filme para máquina fotográfica) de moedas. Cheio de coisas para fazer, entrei apressado, peguei o detergente e fui ao caixa (há somente um), ocupado pela dona do estabelecimento. uma conterrânea (educação nada tem a ver com origem) de meus ancestrais. O local estava cheio de gente, às voltas com as pequenas coisas de urgência (num local desses, onde o preço é bem mais alto que o usual, só se compra o essencial, e de urgência). -Quanto é o detergente? (sem bom dia, porque a tal senhora não o merece). -Noventa e nove centavos. Catei duas moedas de 25 e uma de 50, lhas entreguei em mãos e fiquei esperando. Como só acontece neste país, a tal senhora fez-se de tola e ficou olhando para mim. Ao perceber aquela cara escolada, de idiota proposital, vi que a coisa ia dar em nada (mas deu!) e resolvi perguntar: -O detergente é noventa e nove centavos ou um real? -É noventa e nove! O senhor faz questão de um centavo? – diz ela em tom bastante audível, para ver se o idiota do terrícola faz parte da maioria, e vai se envergonhar em exigir o que é dele. -Absoluta! – digo-lhe, de pronto. -Que miséria! Diz a cutruca, abrindo a gaveta (onde se viam moedas, de todos os valores, bem separadas em pequenos cubículos) e retirando uma moeda de um centavo que, juntamente com um montão delas, estava às escondidas por baixo das notas de 2 reais, em outro compartimento. -É por causa deste povinho, que não dá valor ao próprio dinheiro, que a maioria dele vive na merda. – diz o ignorante de plantão. A dona cuja, arregalou os olhos (que pude ver!) e entregou-me a moeda, sem dizer mais patavina. De lá saí, pensando no meu amigo Antônio Português (a quem encontrei faz uns dois meses, depois de muitos anos de ausência) e do que ele diria, numa situação dessas, naqueles bons tempos: -Se não estás bem, volta pra terrinha, e vá com a cona da mãe às costas. Carlos
Gama. www.suacara.com
20
de novembro de 2003 – 01:38 hs (Em
realidade já é dia 21, mas não vou alterar o script por causa disto). Faltou
explicar, também sobre “Esta é crônica!”. Pois é, esta má criação
(quando necessária) é crônica.
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