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A Chuva... Na Minha Cabeça, O Velho. Já vai alta a madrugada e eu aqui lendo, sossegado, um texto que fala de flores, de primaveras e de música suave. Daí, é que eu atento para o tempo frio e para a chuva que lá fora cai, em acordes contínuos. Lembro-me do velho andrajoso que quase atropelo, ao descer do ônibus, hoje à tarde. Sentado na soleira de uma porta abandonada, no centro velho da cidade, uma região em pior estado, talvez, que o pobre velho. A muleta atravessada na calçada, em meio às placas de catarro; uma catinga, de fazer inveja às sarjetas da "Rua do Peixe". Ele implora alguma ajuda. Passo rente, vou assente, apesar de ir matutando na imagem que passara. E, cá comigo, vou pensando: "nem posso ajudar a todos que me pedem. Nos dias atuais não se dá um passo, sem que alguém lhe peça algum ajutório. Se desse ouvidos ao meu coração, ficaria logo ali, mais adiante a pedir, também, o que já dera". Tampouco me arrependo de nada; o pouco que poderia ter feito, seria nada, em nada. Mas, penso nele, agora. Por quais bandas andará a estas horas? Que marquise o abrigará desta chuva intensa e deste frio cortante? Nestes momentos é que se compreende o porquê do hábito constante de um cobertor, chegando através do gargalo de uma garrafa. Agasalhado assim, por dentro, pega-se num sono pesado e sem sonhos, mas talvez, também, sem frio. Ou quiçá, sonhando vá, sem nunca despertar. Apenas um corpo a mais em alguma calçada, sob uma marquise, a fazer companhia a outros tantos mortos que por ali passam a caminho de... não sabem onde, nem por quem.
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Carlos Gama."www.suacara.com"
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01,45
de 02 de Setembro de 2000. |