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Grande Canalha! O casal montou uma pequena empresa e, dentro das condições do momento, nas dependências da própria moradia, foi tocando o seu funcionamento. Empenhados em criarem condições para bancar a faculdade dos filhos, foram se esforçando cada dia mais e tal atitude - não poderia levá-los a caminho diverso – fez com que a empresa fosse crescendo, obrigando-os a alugarem uma pequena loja, que funcionava, a princípio, como escritório. O movimento, no local, foi crescendo e eles, vislumbrando outras possibilidades, abriram espaço para empregarem os filhos, um a um. Começaram alugando uma máquina de fotocópias, para aumentarem a renda familiar e quem cuidava desta parte, além dos filhos, era a mulher. Mas, como nem sempre havia trabalho que lhe ocupasse todo o tempo disponível, algumas vezes o marido ficava ao lado dela para auxiliar nessa tarefa. Especialmente quando o número de cópias era muito grande e exigia maior empenho. Naquele dia, com muito mais razão ele precisou ajudar. Um processo, de alguns volumes e um trabalho, que exigia muita atenção.Era preciso ir organizando as folhas, com todo o cuidado, depois de feitas as cópias. E o marido foi se incumbindo desse trabalho. Durante uma pequena parada para abastecer, de papel, a máquina fotocopiadora, o marido começou a ler o conteúdo das folhas que tinha à sua frente. Era um processo de desquite litigioso – litigância de total intensidade – e algumas cenas ali descritas eram chocantes. O advogado, que viera fazer as cópias daquele velho processo, precisava do conteúdo daqueles autos, para promover o inventário dos bens, depois da morte dos ex-cônjuges. Parecia um profissional experiente e, além do mais, já não era tão jovem; estava naquela fase em que, normalmente, os primeiros fios de cabelos brancos começam a tingir as têmporas. À medida em que avança na leitura, o dono da loja vai se entusiasmando mais e mais, com os lances melodramáticos de que vai tomando conhecimento através da distraída leitura. -Vagabunda! - Diz ele, revoltado com um lance de traição. Avança, cada vez mais entretido e participante daqueles episódios. -Que sujeira! – Comenta ele, sempre em voz alta – Como podem duas pessoas ser tão descaradas... As mãos tremem, com a emoção contida em cada novo lance. Ele participa, de corpo e alma, de toda aquela trama. -Bandalheira! Cada um
pior que o outro. A mulher chama-lhe a atenção mas, debalde. Decide ir tocando, sozinha, o trabalho porque ele está quase em transe e sequer ouve as suas admoestações. Era como se ele estivesse em outro mundo, em outra dimensão. -Que falta de moral! – exclama – Covarde! Como é que você pode agredir assim à sua mulher? Sujeitinho sujo! Está quase apoplético, vermelho e trêmulo. Num último ato de revolta e inconformismo ele, quase, grita: -Grande Canalha! -Eram meus pais –
diz, envergonhado, o advogado. Carlos
Gama. 23 de dezembro de 2001 – 23:55 h Design by Rosy Beltrão |